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ser ou não ser, edição 2020

A felicidade duradoura não vem de recompensas externas e passageiras (carros, casas, iates etc.), mas de desafios que são propostos por nós mesmos, com objetivos claros, sensação de controle e recompensas diretas e imediatas

Tiago Dória destrinchou um excelente raciocínio sobre a necessidade de um leitor fazer parte de algo maior para se engajar e se envolver em algum movimento. No artigo ele cita a ideia de estado de fluxo do psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi que eu desconhecia e veio numa ótima hora de reflexão sobre o que é manter-se feliz. Ele explica que mantemos nossa motivação a partir do momento que nos colocamos desafios que nos levem ao estado de êxtase. Sendo assim, a questão principal seria encontrar uma chave que ativasse essa espécie de êxtase – e não simplesmente esperar que isso aconteça de uma hora pra outra. Ainda no artigo, Tiago Dória exemplifica que os games são mecanismos de ativação dessa experiência de fluxo, uma vez que fazem com que o usuário se torne parte da atividade.

McGonigal afirma que vivemos a era do “spam da participação”. Todo dia recebemos convites para fazer parte de uma nova lista de discussão, ajudar a editar um verbete na Wikipedia, fazer parte de mais um grupo no Facebook, a traduzir mais um vídeo, a dar a opinão nisso e naquilo, a enviar a foto de não-sei-o-que-lá para mais um site de jornalismo. Mesmo que tivéssemos o dia inteiro livre seria impossível atender a tantos convites. Porém, de acordo com a sua abordagem, o problema dos projetos colaborativos não é a escassez de tempo e atenção das pessoas, mas o fato de, em sua maioria, trabalharem inicialmente tão somente com a nossa capacidade cognitiva, ignorando as emocionais e sociais.

Paralelamente a esse raciocínio, ando encucada com uma questão. Há algumas semanas o pessoal da HyperIsland veio fazer uma dinâmica aqui na agência e, em um dos exercícios, pediu que cada grupo definisse qual seria a profissão do futuro (2020). De 6 grupos, 5 criaram profissões que podem ser sintetizadas em “social profile managers”, ou seja, pessoas que cuidem da sua presença (pessoa física) nas redes sociais, uma vez que a percepção é de que não teremos tempo para cumprir as atividades digitais e sociais. Não chega a ser um fato científico, mas 5 de 6 grupos numa sala apresentarem a mesma ideia chega a ser preocupante. Entendo a necessidade – e trabalho diretamente com isso – de uma marca (empresa ou personalidade/celebridade) precisar de alguém que gerencie seus perfis nas redes sociais. Mas fico pensando onde vamos parar com esse raciocínio. É esquisito achar que outra pessoa deva te representar nas redes sociais. É ainda mais esquisito considerar que a sua estampa digital entre em conflito com a sua agenda, como se não houvesse tempo para viver a vida física e a vida digital ao mesmo tempo. Uma não deveria ser o espelho da outra, ainda que fragmentado?

A única certeza que esse workshop me trouxe é que estamos saturados de informação, sem saber como lidar com essa necessidade de atualização do digital. Marcar presença na rede tornou-se um importante fator identitário mas, se seguirmos a teoria da experiência de fluxo de Csikszentmihalyi e a ideia de que necessitamos visitar o campo emocional e social para atingir o êxtase, o conceito de “social profile manager” não dura muito. E eu realmente espero que seja esse o caminho.

aceita um spam, com gelo e limão?

O briefing que eu recebo costuma ser padrão. Queremos inovar. Queremos ser assunto. Queremos ser amados. Tirando alguns detalhes de cada briefing, o KPI emocional, se é que posso chamar assim, costuma ser o mesmo. Nós, da equipe de mídias sociais, planejamos, criamos, executamos e mensuramos. Aliás, já que toquei nesse assunto, vale um detalhe: muito me espanta o uso corriqueiro de “especialista/analista de mídias sociais”. Eu nunca contratei um desses. Eu contrato publicitários, jornalistas, comunicadores em geral. Gente que estudou o assunto e tem o mínimo de conhecimento sobre mensagem, emissor, receptor. Se souber dialogar sobre a Sociedade do Espetáculo ou souber diferenciar virtual de digital, melhor ainda. É isso que diferencia um profissional de um “-ista”.

Acontece que muitos “-istas” têm ocupado posições no mercado. Oferecem soluções caseiras – para não dizer toscas – para os tais dos briefings de inovação. Algo como “Quer estar em blogs? Pergunte-me como.” Até aí, cada um com os seus problemas. Porém, como alguém que trabalha no mercado de redes sociais, sinto cada vez mais que as soluções “-istas” crescem. São simples e costumam ser baratas. Efetivas ou não, éticas ou não, são no mínimo tentadoras.

Para nós, que focamos em ações efetivas e transparentes, ter contato com esse tipo de coisa é desanimador. Não me entendam como vítima. Picaretagem existe em qualquer área, isso nunca foi novidade. Mas é ruim ver essas coisas acontecerem, principalmente quando você acredita nisso.

Se você é daqueles que acha que trabalhar com inovação é fácil, ligue djá para algum “-ista”. Se você não for uma dessas pessoas, pode mandar seu currículo que a gente conversa.

*Atenção: esse foi um post pago. Pago pela minha consciência.

briefing: inteira ou meia?

É fato que publicitário adora fazer listas e coisinhas engraçadas sobre a própria profissão. Dessa vez eu não aguentei e acabei fazendo a minha listinha de tipos de briefing que você pode receber.

Briefing Catch me if you can: muito comum em diversos jobs, fica fugindo de você que nem rato de gato. Costuma estar dividido em diversas pessoas, o que faz com que você tenha que ficar correndo atrás de cada uma delas para juntar as peças. A sensação é de que ele nunca estará mesmo em suas mãos.

Briefing Matrix: do you want the red pill or the blue one? A verdade parece estar desconexa da realidade, o que nos faz pensar: afinal, o que será abordado na campanha?

Briefing Mullholand Drive: é um briefing muito louco, cada informação que chega destrói a anterior. Você vai lá, planeja, cria, desenvolve e, de repente, alguém abre uma caixinha azul e pede para aumentar o logo. Está mais para pesadelo do que para Cidade dos Sonhos.

Briefing Citizen Kane: é o famoso “eu quero um case para este job, ok? entrega daqui a duas horas”. Gente, com quantos paus se faz um trenó? Não é só colocar Rosebud no começo de tudo, tem que ter tempo, planejamento, criação e todas as viagens inclusas. Idéias geniais podem vir em um minuto. Assim como podem vir em 1 semana, 1 mês, 1 ano.

Briefing Inglorious Basterds: é daquele que você tem que matar a concorrência esquecendo qualquer tipo de politicagem e tal. Quanto mais sem noção for a maneira de matá-los, melhor. Junto com o relatório o cliente recebe os escalpos da concorrência.

Briefing Borat: fala sério que é isso que você quer para a sua imagem de marca?

- Garçom, pufavô, me vê um briefing Amélie Poulain?

luluzinha camp

E você?

mídia impressa

Daí que eu sempre tenho dificuldade com algumas nomenclaturas de mídia impressa, já que não estou acostumada a trabalhar com isso. No meio de uma reunião, aparece alguém para falar de mídia impressa e um cara rebate:

- Ah, não me venha com nove grávidas!

Nisso eu comecei a pensar o que seriam as grávidas em mídia impressa? Páginas duplas? Páginas com lombada? Páginas com enjôo ou algum desejo intenso?

Dias depois, pesquisando com as pessoas o que seriam as tais das grávidas, descobri: ele se referia ao ditado “Nove grávidas não vão fazer seu filho nascer em um mês”.

Ai que burraaa.

não exigimos experiência (ainda)

É normal que qualquer sujeito fique nervoso antes de uma entrevista de emprego, afinal, provavelmente, o indivíduo está atrás daquela vaga. Esse nervoso pode triplicar no caso de estagiários, ainda mais se é a primeira vez deles. Por isso, resolvi juntar o que percebi nos últimos anos para ver se essa primeira vez dói menos – e garante o telefonema no dia seguinte.

Aqui quem fala é…
O contato inicial para uma entrevista pode ser por telefone ou por e-mail. Em primeiro lugar, explique o motivo de estar em contato com aquela pessoa. Algo simples, do tipo “Escrevo para me candidatar à vaga de estagiário publicada na Gazeta da Facu” já resolve o assunto. Quem recebe seu e-mail ou telefonema pode estar no meio de três ligações ou numa reunião de cinco horas e, assim, poderá logo identificá-lo e tratá-lo da melhor maneira. Outro detalhe importante é deixar seu telefone e e-mail numa posição de fácil leitura, como no corpo do e-mail. Não faça a pessoa ficar caçando seu currículo anexado e ter que abri-lo quando quiser entrar em contato contigo.

Portfolio
Se você é da área de propaganda ou de algo relacionado ao mundo artístico, sabe como é importante mostrar seu trabalho para impressionar o futuro chefe. Ao meu ver, a melhor opção é o portfolio online. Mostra o que tem que mostrar, em um clique se chega lá, não tem que baixar nada e, hoje em dia, lugar é o que não falta: Flickr, WordPress, Tumblr, escolha o seu e seja feliz. Se, por um desastre dos astros, não for possível hospedar suas obras em lugar nenhum, transforme-as em um pdf e envie anexado. Nesse momento, muito cuidado: entenda as diferenças entre as configurações de pdf – impressão ou tela. Ninguém merece fazer um download de 30 MB para ver 10 páginas A4. Ah, nunca, em hipótese alguma, envie peça por peça – anexadas uma a uma – no e-mail. Só de ver algo com mais de dois anexos já me dá preguiça. Se for levar portfolio impresso na entrevista, deixe-o bonitinho e cheirosinho.

Divã
Seu futuro chefe não precisa saber de todos os seus anseios, desejos, aflições e história de vida. Entrar em detalhes como “quando eu era criança minha professora escolheu minha poesia como a melhor da sala e, desde então, treino diariamente para ser o melhor redator do mundo” pode ser extremamente chato. Deixe isso para a entrevista, se lhe for perguntado.

Roupa ou figurino
Todo mundo sabe o que é a tal da primeira impressão. Quando eu ainda estava na faculdade, lembro de uma professora dizendo “eu demorei anos para conseguir trabalhar com a roupa que eu realmente queria”. Concordo totalmente. Mesmo trabalhando em uma área bastante informal, metida a tendências e vanguardas, não considero prudente aparecer de GNT Fashion na primeira entrevista. Também não acho que seja um fator decisivo mas, no menor sinal de dúvida na contratação, naquela conversinha entre os chefes, vai rolar um “ah, o emo não”. Por isso, pense bem em como você quer que as pessoas se lembrem de você.

With lasers
Olhar nos olhos da pessoa na entrevista indica uma certa segurança do candidato. Se para você for extremamente difícil fazer isso, tente fixar um ponto na testa da pessoa ou no meio dos olhos. Pode te ajudar a não parecer um avestruz com a cabeça enfiada na terra. Se a timidez for crônica, faça teatro tente intercalar os momentos de olhar para o lado com os momentos de olhar para baixo.

Sei que nada sei
A pessoa que está te entrevistando está, sem a menor dúvida, aplicando um teste. Não estou falando daquelas leituras específicas de saber a personalidade da pessoa pelo jeito como ela escreve num papel, mas de um teste mais amplo, que envolve conhecimento e personalidade. A palavra “não sei”, nessas horas, me parece um grande jeito de demonstrar fraqueza. Ninguém é obrigado a saber tudo, mas aproveite o gancho de uma pergunta cuja resposta você não tem a menor idéia e mostre curiosidade. Se o entrevistador perguntar o que você acha do rock da Islândia, procure qualquer referência na sua cabeça e revide “nossa, não conheço o rock da Islândia, a Bjork tem algo a ver com isso?”. Curiosidade pode valer mais do que conhecimento nessas horas.

Sei que nada sei 2
É mais do que pressuposto que o candidato tenha visitado o site da agência ou do local que almeja trabalhar. Conhecer os trabalhos do lugar também é bem interessante, além de serem cartas na manga para a eventual falta de assunto. Um terceiro detalhe que pode fazer diferença é ter certeza da pronúncia do nome da pessoa com quem vai falar. Às vezes é um nome gringo e você não é obrigado a saber como a mãe da pessoa idealizou a pronúncia. Ligue para o local e, despretensiosamente, pergunte para o atendente como se fala o nome do dito cujo.

Beijomeliga
Leve alguma coisa para deixar com o futuro chefe – pode ser desde o currículo impresso até uma cópia irada do seu portfolio estampada em um moleskine. A idéia é deixar algo físico que faça com que a pessoa se lembre de você.

Espero que minhas considerações sejam úteis para os futuros profissionais de mercado. E lembrem-se: são divagações da minha própria cabeça, de alguém que já entrevistou uma série de candidatos. Nada impede que outro contratante tenha critérios totalmente distintos e te contrate se você disser que seu sonho de vida é ser o Vampeta. Afinal, tem gente pra tudo nesse mundo.

foras x chefes

Tenho uma história engraçada com chefes. Eu não consigo conviver com nenhum deles sem dar um fora. Mas eu não tô falando de fora bonitinho, daqueles de errar o nome da esposa do cara. Eu tô falando do fora pesado, moral e, algumas vezes, cínico.

O primeiro deles rolou quando eu era estagiária numa agência – vou ocultar os nomes para que apenas o mundinho publicitário quem presenciou saiba. Nessa agência, a primeira que eu trabalhei, havia um outro estagiário bem estilinho surfista. E a gíria do momento era “velho, blá blá blá”, muitas vezes pronunciada “véio”. Eu, influenciável que sou, comecei a empregar a gíria em qualquer frase da minha vida. Eis que certo dia estávamos eu e meu diretor de arte preferido olhando as vitrines do shopping e enrolando pra voltar terminando o almoço quando o chefe liga, meio puto, querendo saber onde estávamos. E a minha reação brilhante foi dizer “Calma, velho…” com a mesma entonação de quem está ouvindo Bob Marley. De onde surgiu a embolorada idéia de dizer isso? Eu podia ter dito qualquer coisa, qualquer mesmo, mas o que me veio à cabeça – e à boca -  foi “Calma, velho…”. Além da posição estou-sussa, eu ainda chamei o cara de velho. Lamentável.

A segunda vez rolou na agência seguinte, na qual o chefe tinha um certo costume de ver os relatórios que eu mandava no horário em que eu já deveria estar em casa vendo novela na faculdade. E num desses dias eu estava lá, afundada na cadeira do computador e olhando pra tela com cara de acelga quando um outro moço que trabalhava com a gente me pergunta no msn: “por que você ainda está aqui?” Minha resposta, sem mover um músculo das costas para enxergar além da tela do computador, foi “tô esperando o PRÍNCIPE ver o relatório”. O que eu não percebi foi que o “príncipe” ao qual eu havia me referido estava logo atrás da janela de msn desse moço, lendo nossa conversa. O olhar fulminante dele em cima de mim foi o suficiente para eu entender que ele demoraria mais três horas até ver o relatório e me liberar. E nessas três horas eu fiquei pensando em jeitos de puní-lo por ser tão intrometido e ficar lendo a janelinha do msn dos outros agradá-lo novamente.

Já o terceiro fora (aqui listado, veja bem) rolou com meu chefe mais recente, que tem o maiorrrr sotaque carioquêxxxxx do mundo. Daí que no meio do brainstorm o meu diretor de arte preferido (sim, aquele mesmo do outro fora) começou a falar “quem nasce no Rio é carioca, quem nasce em São Paulo é paulista e quem nasce no Rio Grande do Sul é…” “Viado!”, completei eu prontamente. Quando vi, meu chefe tirou os olhos do laptop e disse: “Você sabe onde seu chefe é nascido, né?”. E eu lá vou saber que aquele sotaque carioca era uma espécie de camuflagem de um gaúcho enrustido? Pra completar o fora, eu ainda tive o maior ataque de riso do mundo e tive que sair da sala para me acalmar.

Ou seja, um eu chamei de velho, outro de mala príncipe e outro de viado. Tô ou não tô pronta para entrar no Guinness na categoria funcionário-que-vai-morrer?

- Garçom, pufavô, me vê uma startup pronta e lucrativa pra eu não ter mais chefe?

Ah, dedico este post ao meu diretor de arte preferido que, ano após ano, teve os mesmo chefes que eu e conseguiu, sentado na primeira fila, ver todos os meus foras sendo concretizados.

fingir

Os palhaços iam de quarto em quarto e a criançada, que mais parecia saudável do que doente, ia acompanhando as visitas no hospital. Eis que uma delas entra num quarto e começa a liderar a cena, dizendo que os palhaços eram os médicos e que ela ia fingir que estava doente para que eles a medicassem.

Fingir que estava doente. A criança hospitalizada ia fingir que estava doente.

E aí eu me pergunto se há tamanho para a capacidade de abstração de uma criança.

doe uma infância

Graciosa a campanha da Unicef que pede pra você doar uma infância.

Num período da minha infância, morei com meus avós. Nessa época, era meu avô que me colocava para dormir. Ele vinha, toda noite, com um novo gibi, pois, segundo ele ‘é muito bom ler antes de dormir’. Eu lia o gibi feliz, tal qual meu avô lia seu livro.

trampar em ong é…