Portugal tem o maior número de varais públicos por metro quadrado.
Até no meio da plantação de uvas tem varal. Será que, se pendurar as uvas lá, vira uva passa?
Ai, péssima essa.
Eram três senhoras portuguesas. A primeira delas, de casaco preto e branco, foi feliz com o marido por 47 anos, até a morte dele. Ela nascera no Algarve, mas preferia morar em Guimarães.
- Algarve, só no verão.
- E o que a senhora costuma fazer aqui?
- Eu? Nada!
Seguia feliz ao lado da prima do seu marido falecido. Essa tinha a pele clara e o rosto manchado e me explicava que a terceira senhora estava afastada porque era a empregada, que sorria à distância interessada na conversa.
Me contavam que estavam a ir ao mercado para comprar algo para o almoço.
- Vamos comprar um peixe!
- Hummm, que delícia, assado?
- Não, cru. Vamos cozinhar depois.
Ai que burrrra (eu!). Era óbvio que mais dia menos eu cairia nessa lógica portuguesa que, a propósito, faz muito sentido. Acabei rindo sozinha depois, lembrando do diálogo e delas me contando sobre amores, Algarve, peixes e broas de milho da melhor qualidade.
Babem. Em Portugal, esses foram os itens que formaram minha base alimentar.
Alheira (linguiça de farinha utilizada pelos judeus para disfarçarem a religião) acompanhada de bacon.
Polvo (grelhado, talvez) com cebola assada, servido sobre batatas ao murro. Sim, eu tenho tique de colocar fotos verticais aqui, por isso ele está deitado.
Leitão (alguns defendiam a tese de que era uma leitoa) com batatas assadas e laranjas.
Leite-crema de acordo com os portugueses, mas é o famoso crème brûlée.
Arroz de pato com paio e bacon (embora o paio deles seja diferente do nosso).
Flor de jamón com salada-linda e um molho que tinha azeite, vinagre, sal e molho inglês.
Peixe grelhado com molho de maracujá, espinafre e folha crocante de batata.
Sorvete de menta, chocolate com folha de menta in natura e mousse de chocolate sobre cookie de chocolate. Olha, todas as sobremesas portuguesas incluem ovo e são deliciosas, mas essa daí pegou nos meus pontos mais fracos: chocolate e menta.
Raviole de abobrinha recheado de ricota e espuma de canela.
Manteiga de leite de cabra. Genial. Quando perguntamos onde comprá-la, o garçom disse que havia um único produtor disto em Portugal e que a produção dele era consumida inteira pelo hotel. Ou seja, só dá pra comer lá mesmo.
Escalopes com um molho semi-doce, acompanhado de uma espécie de risoto de batata palha e shitake. Havia também uma geléia pra comer com a carne, mas isso eu nem curti.
Torta crocante de maçã, groselha em cima para enfeitar, abacaxi abaixo e creme de manga com espuma de côco e folha de agrião (eu nunca havia visto a groselha em fruta).
É claro que depois de toda essa comida, digamos, leve e saudável, a caganeira virose apareceu e me fez dedicar vários momentos aos banheiros portugueses. Mas foi, sem a menor dúvida, o piriri mais válido que eu já tive.
O jeito foi controlar um pouco a alimentação, com exceção apenas para o crepe de nutella com banana em Paris. Afinal, não é todo dia que se chega em Paris com a neve caindo dos céus. Mas isso vai ficar pra outro post, já que este já está concorrendo ao ‘post mais longo do mundo inteiro’.