Category archives: Lágrima

o dia em que eu não chorei

O complexo Auschwitz-Birkenau foi criado como a solução para o problema judaico da Europa. Somente lá, mais de um milhão de judeus viraram cinzas no sistema de extermínio em massa. É um dos poucos campos que ainda existem pois não foram totalmente destruídos pelos nazistas, ao perceberem que haviam perdido a guerra.

Em Auschwitz I, é possível ver toda a história do campo. Os restos de cabelo, de talit, de óculos. Fotos das experiências desumanas que Menguele fez com várias crianças. Uniforme dos prisioneiros, buraco que servia de banheiro, estábulo no qual dormiam. O sadismo detalhado de cada processo é aos poucos explicado. Havia uma orquestra que tocava no início e no fim do trabalho, para que os prisioneiros andassem em ritmo e facilitassem a contagem. Além disso, a orquestra servia para entreter as famílias dos oficiais nazistas quando elas visitavam o local. Aí eu fico imaginando uma mãe dizendo ao filho: “oba, hoje vamos visitar o papai no local de trabalho dele, tem até música!”

Ao chegar no campo, mesmo já tendo tido contato com todas as fotos e vídeos possíveis, uma ficha grande caiu. A maior – e talvez mais pesada – questão que ronda a mecânica nazista é a dissolução da dignidade do ser humano. Dissolução que destruiu laços familiares, valores e até mesmo o sagrado dentro de cada um dos judeus. Tudo isso deixou de fazer parte daqueles seres que, de humanos, nada mais tinham.

Incrivelmente, nesse dia, eu não chorei. Quem me conhece sabe que eu sou capaz de chorar por qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Mas, no campo, nenhuma lágrima minha era digna daquilo que eu estava vendo, de tão chocante que era.

Somente um tempo depois de sair de lá eu consegui processar alguma coisa e desenvolver em lágrimas um pouco daquela amargura.

No entanto, sou obrigada a me corrigir quando disse que não restou nada naquelas pessoas. Restou-lhes o conhecimento. O mesmo que continuamos passando dia-a-dia para que um horror como esse jamais volte a acontecer.

coisa linda de se ver

Daí que, no dia que embarquei para a Suécia, ganhei um presente incrível da Pat, que se juntou com a minha mãe e a Patinha para me dar… um blog!

Pra começar, o nome genial: mawacomweno

Em seguida, um monte de posts de gente querida que eu amo e que dedicou um tempo para escrever para nós. You are awesome, guys.

E, no meio de tudo isso, posts de gente de todo tipo, desde a família real sueca até o Patati e Patatá, passando por Norma e Tia Nenê. Ainda bem que deu tempo da Norma escrever as coisas antes de morrer, né?

o noivado ou senta que lá vem a história

A gente já falava disso há muito tempo. Casar, morar junto e seus derivados passaram a fazer parte de nosso plano de vida e, com uma viagem à França agendada, a mulherzinha aqui já estava super pronta para dizer o sim. No último dia de nossa estadia em Paris, fomos ao Chateau de Vaux Le Vicomte, numa visita à luz de velas que incluía um momento champanhe básico. Ou seja, uma vez criada com a coletânea completa da Disney, aquilo parecia ser uma situação bem interessante para um pedido de casamento:

A gente entrou, passeou, tirou fotos, desenhou. Desenhou. Desenhou. E o tempo foi passando e eu comecei a achar que não ia rolar pedido nenhum lá. Demoramos tanto no jardim que acabamos tendo que correr para a saída e pegar o último ônibus que levava ao trem que levava à Paris. E, nessa correria, simplesmente viramos o champanhe da maneira menos romântica possível. No ônibus, já meio altinha, eu soltei a pergunta fatal:

- A gente vai casar, né?

Sim, eu liberei o meu lado macho-alfa interno e praticamente fiz um follow com ele para saber se o plano estava de pé. Ele deu risada e fez a MAIOR declaração de amor do mundo pra mim, olhos nos olhos, lágrimas sobre lágrimas. E encerrou:

- Eu só não achei que eu ia te falar tudo isso num ônibus de turismo.

Nessa hora, eu estava tão envolvida com o discurso que até havia deletado da minha mente os russos que estavam ao redor. Aquelas palavras eram tão inteiras e doces que me tomaram por completo e eu nem sabia mais onde estava. Assim continuamos no trem até Paris, trocando ideias e palavras sobre nós dois. No meio da conversa, ele confidenciou:

- A aliança não está aqui ainda. Eu preferi comprá-la na França ao invés de lhe dar uma do Brasil. E eu preferia fazer isso no sul da França, num momento mais calmo, mais romântico. Paris é muito cliché, né?

Tenho que concordar: mesmo com o episódio do Chateau, ele tinha 100% de razão. A gente não é cliché. A gente não é tradicional. A gente simplesmente não é assim. E ele, pra variar, me trouxe de volta ao que eu mais gosto de ser. Em Paris, jantamos e ganhei a minha primeira aliança:

No dia seguinte, um domingo, pegamos o trem para Avignon. Chegamos na cidade e fomos parar num restaurante mágico. Comida delícia, donos simpáticos e carinhosos, cozinheira apaixonada pelo que faz. Provençal até a última gota. Empolgados, reservamos o jantar da terça-feira, nossa última noite na cidade, naquele mesmo lugar. Felizes, passamos o resto do domingo nos apaixonando pelas pedrinhas das ruas de Avignon. No dia seguinte, ele sairia para comprar a aliança e finalizar o pedido.

Aí chegou o dia seguinte. Ao passearmos pelas ruas, percebemos que era feriado. E a informação mais importante que corria por lá, além da queda da Bastilha, era que nenhuma loja de aliança estava aberta. Ou seja, no doughnut for us. A minha grande teoria para tudo isso é que é o Woody Allen que roteiriza minha vida. Já minha prima achou super natural, alegando que somos dois palhaços e que só poderia ser assim, o que também não deixa de ser verdade. O fato é que tivemos que esperar mais um dia.

No dia seguinte, como se nada houvesse, nos separamos na cidade. E enquanto ele cumpria sua missão, eu fazia a ronda nas Zaras e H&M’s da vida. Nos encontramos no almoço e passamos a tarde sem falar muito sobre o assunto. O discurso de amor já havia sido feito no momento transporte coletivo; o anel estava comprado; o restaurante já era conhecido e delicioso. Tudo parecia extremamente previsível. Até a hora que chegamos na porta do restaurante.

Eu juro que isso aqui não é uma novela do Manoel Carlos ou meu momento Lusíadas. É só um fato: nossa vida sempre vai ser baseada no improviso. Nada é previamente conhecido. E ponto.

No restaurante, estavam os dois donos na porta, a cozinheira e seu filho, nos esperando para dar a notícia. A geladeira havia quebrado e eles perderam toda a comida preparada para aquele dia. Era nítida a frustração em seus olhos, mas eles mal sabiam o que estava para acontecer. Pedimos uma dica de restaurante e seguimos para o novo endereço onde, por fim, recebi a aliança em meio às lágrimas e goles de champanhe, para não mencionar a entradinha de carpaccio de vieiras que comemos lá. Mas esse post já está praticamente um livro de Victor Hugo e eu terei que deixar a descrição das comidinhas para depois. Podem babar apenas com a foto:

Já em São Paulo, decidi dar uma aliança para ele e o lugar, selecionado a dedo, foi a casa de nossos queridos em Vinhedo. Além de serem parte da família, eu preferia entregar a aliança num lugar mais calmo e mais gostoso. Afinal, depois de ser pedida em Avignon, eu só poderia achar São Paulo muito cliché, né?

PS: esqueci de comentar que no restaurante da minha primeira aliança, aquela desenhada, encontramos o Bruce Willis. Woody Allen, obrigada por mais um detalhe viral esquizofrênico na minha vida.

mário chamie

Chamie - Nessa época, eu e Vinícius…
Eu - Peraí, qual Vinícius??
Chamie - De Moraes.

Eu quase caí pra trás. Ele convivia com Vinicius de Moraes. Aquele senhor, fofo que só, conversava com Vinicius de Moraes. Embora todo mundo na faculdade adorasse o fato dele ter dado aula para o Jim Morrison, eu simplesmente não ligava para isso. Mas Vinicius sempre foi uma palavra-chave na minha vida impossível de ser ignorada. Passei a prestar muito mais atenção nele, embora ele merecesse todo o respeito mesmo se não houvesse convivido com Vinícius.

Mário Chamie tinha um amor público por Emilie. Falava dela com uma doçura incrível, confidenciando todo seu coração para seus alunos semestrais. Contava de seus feitos e de seus livros, sempre com uma ponta de orgulho. Foi fundador da poesia-práxis e meu professor. Dirigia com a coluna erguida, tentando enxergar a rua e, como que num ato religioso, caminhava em direção à sala de aula carregando sua sacolinha do Santa Luzia. Lembro até hoje de Chamie cantando um trecho de Chico Buarque, com as mãos em saudação: (…) e cada qual no seu canto, em cada canto uma dor (…). Cantava e sorria, elogiando a aplicação da palavra “canto”. Ele era evidentemente apaixonado pelas coisas, o que, por si só, já faria dele um ser extremamente encantador.

Chamie, um obrigada por tudo. Espero que já esteja com Emilie. E mande um abraço pra Vinicius, ok?

vovô

Chorei demais. É lindo.

Vovô from Luiz Lafayette Stockler on Vimeo.

Via IdeaFixa.

dedicada

De: MaWá
Para: Weno

impressionante

Imagem pós tsunami do Japão. Pra gente lembrar que é muito menor – e menos importante – do que pensamos ser.

jacó

Vocês já conheceram por aqui o meu avô materno, Milek. Já o meu avô paterno não costuma estar tanto em minha memória, não por qualquer tipo de preferência, mas porque ele se foi enquanto eu ainda era bem pequena. Ou seja, minhas memórias dele costumam estar ligadas à epoca em que eu enxergava o mundo pela altura de uma mesa. Tudo era visto por aquela perspectiva de uma criança de 8 anos.

Essa noite encontrei com meu avô Jacó. Sonhei que ele estava aqui, após uma dúvida súbita e coletiva sobre o fato de ele poder estar vivo após o período que passou em coma antes de morrer. Eis que ele surge novamente no hospital, envelhecido assim como a gente desde o ano de sua morte (1991). Meu irmão, já grande e médico, passou a visitá-lo diariamente. Cuidava de sua saúde e de sua memória, já que meu avô não sabia ao certo quem era e quem eram as pessoas de sua família. Em um determinado dia, ainda no sonho, ele e meu irmão foram empinar pipa, num gesto de lembrança de toda aquela infância já distante.

Em seguida, a cena cortou para o quarto. 15 pessoas aproximadamente olhavam para ele que, confuso, continuava observando e tentando encontrar algum rosto conhecido.

Ele então olhou pra mim e disse:

- Marina!

Todos se surpreenderam. Ele enfim reconheceu alguém.

- Oi vô!

- Como você está?

- Estou bem. Estou terminando um mestrado, acredita?

O sonho termina. Acordo com a memória viva e confusa. Não me lembro de ter sonhado antes com esse avô. Tampouco consigo recordar o timbre de sua voz. Segundo a minha avó, viúva dele, provavelmente ele veio, uma semana antes da defesa do mestrado, apenas mostrar que está sabendo de tudo.

andando em círculos

Elas são lindas e nem mesmo sabem o motivo. Uma afirmação sem questionamento torna-se apenas uma constatação. Tenho que ser bem sucedida, tenho que estar na moda, tenho que responder à altura de tal coisa. E daí? Que altura é essa que às vezes parece esbarrar no céu? Não saber o que fazer com isso é natural, mas envolve uma série de riscos e coisas que crescem com a intempestividade característica de terremotos. Pânico, fobia, controle. O que viemos mesmo fazer aqui? Ou melhor, o que viemos mesmo sentir aqui? Talvez o estar se projete sobre o ser. Talvez a cabeça tente entender o que nem mesmo o corpo sente. Talvez a carroça esteja na frente das zebras que, lista sim lista não, acordam para decidir se hoje é dia de ser um boi ou uma libélula. Ao menos elas decidem o que querem ser quando acordam.

***

Eu acordo para rir. E você?

aos vivos

A primeira morte com a qual tive que lidar foi a de meu avô paterno. Eu tinha uns 7 anos quando acordei e dei de cara com a família inteira na minha casa. Vê-los ali me deixou feliz nossa, todo mundo veio aqui! Em pouco tempo alguém me pegou no colo e me contou o que estava acontecendo. Aquilo era o luto, coisa que eu nunca tinha visto de perto. E de todas as coisas que aconteceram naquele dia, entre lágrimas, roupas rasgadas, abraços e suspiros, a que mais me marcou foi uma frase do meu pai: vamos cuidar dos vivos.

Toda vez que a morte chega perto, percebo quão valiosa é essa frase. Tem que rezar por quem foi, mas prezar – com muito carinho – por quem fica.