A gente já falava disso há muito tempo. Casar, morar junto e seus derivados passaram a fazer parte de nosso plano de vida e, com uma viagem à França agendada, a mulherzinha aqui já estava super pronta para dizer o sim. No último dia de nossa estadia em Paris, fomos ao Chateau de Vaux Le Vicomte, numa visita à luz de velas que incluía um momento champanhe básico. Ou seja, uma vez criada com a coletânea completa da Disney, aquilo parecia ser uma situação bem interessante para um pedido de casamento:

A gente entrou, passeou, tirou fotos, desenhou. Desenhou. Desenhou. E o tempo foi passando e eu comecei a achar que não ia rolar pedido nenhum lá. Demoramos tanto no jardim que acabamos tendo que correr para a saída e pegar o último ônibus que levava ao trem que levava à Paris. E, nessa correria, simplesmente viramos o champanhe da maneira menos romântica possível. No ônibus, já meio altinha, eu soltei a pergunta fatal:
- A gente vai casar, né?
Sim, eu liberei o meu lado macho-alfa interno e praticamente fiz um follow com ele para saber se o plano estava de pé. Ele deu risada e fez a MAIOR declaração de amor do mundo pra mim, olhos nos olhos, lágrimas sobre lágrimas. E encerrou:
- Eu só não achei que eu ia te falar tudo isso num ônibus de turismo.
Nessa hora, eu estava tão envolvida com o discurso que até havia deletado da minha mente os russos que estavam ao redor. Aquelas palavras eram tão inteiras e doces que me tomaram por completo e eu nem sabia mais onde estava. Assim continuamos no trem até Paris, trocando ideias e palavras sobre nós dois. No meio da conversa, ele confidenciou:
- A aliança não está aqui ainda. Eu preferi comprá-la na França ao invés de lhe dar uma do Brasil. E eu preferia fazer isso no sul da França, num momento mais calmo, mais romântico. Paris é muito cliché, né?
Tenho que concordar: mesmo com o episódio do Chateau, ele tinha 100% de razão. A gente não é cliché. A gente não é tradicional. A gente simplesmente não é assim. E ele, pra variar, me trouxe de volta ao que eu mais gosto de ser. Em Paris, jantamos e ganhei a minha primeira aliança:

No dia seguinte, um domingo, pegamos o trem para Avignon. Chegamos na cidade e fomos parar num restaurante mágico. Comida delícia, donos simpáticos e carinhosos, cozinheira apaixonada pelo que faz. Provençal até a última gota. Empolgados, reservamos o jantar da terça-feira, nossa última noite na cidade, naquele mesmo lugar. Felizes, passamos o resto do domingo nos apaixonando pelas pedrinhas das ruas de Avignon. No dia seguinte, ele sairia para comprar a aliança e finalizar o pedido.
Aí chegou o dia seguinte. Ao passearmos pelas ruas, percebemos que era feriado. E a informação mais importante que corria por lá, além da queda da Bastilha, era que nenhuma loja de aliança estava aberta. Ou seja, no doughnut for us. A minha grande teoria para tudo isso é que é o Woody Allen que roteiriza minha vida. Já minha prima achou super natural, alegando que somos dois palhaços e que só poderia ser assim, o que também não deixa de ser verdade. O fato é que tivemos que esperar mais um dia.
No dia seguinte, como se nada houvesse, nos separamos na cidade. E enquanto ele cumpria sua missão, eu fazia a ronda nas Zaras e H&M’s da vida. Nos encontramos no almoço e passamos a tarde sem falar muito sobre o assunto. O discurso de amor já havia sido feito no momento transporte coletivo; o anel estava comprado; o restaurante já era conhecido e delicioso. Tudo parecia extremamente previsível. Até a hora que chegamos na porta do restaurante.
Eu juro que isso aqui não é uma novela do Manoel Carlos ou meu momento Lusíadas. É só um fato: nossa vida sempre vai ser baseada no improviso. Nada é previamente conhecido. E ponto.
No restaurante, estavam os dois donos na porta, a cozinheira e seu filho, nos esperando para dar a notícia. A geladeira havia quebrado e eles perderam toda a comida preparada para aquele dia. Era nítida a frustração em seus olhos, mas eles mal sabiam o que estava para acontecer. Pedimos uma dica de restaurante e seguimos para o novo endereço onde, por fim, recebi a aliança em meio às lágrimas e goles de champanhe, para não mencionar a entradinha de carpaccio de vieiras que comemos lá. Mas esse post já está praticamente um livro de Victor Hugo e eu terei que deixar a descrição das comidinhas para depois. Podem babar apenas com a foto:

Já em São Paulo, decidi dar uma aliança para ele e o lugar, selecionado a dedo, foi a casa de nossos queridos em Vinhedo. Além de serem parte da família, eu preferia entregar a aliança num lugar mais calmo e mais gostoso. Afinal, depois de ser pedida em Avignon, eu só poderia achar São Paulo muito cliché, né?
PS: esqueci de comentar que no restaurante da minha primeira aliança, aquela desenhada, encontramos o Bruce Willis. Woody Allen, obrigada por mais um detalhe viral esquizofrênico na minha vida.