Elas são lindas e nem mesmo sabem o motivo. Uma afirmação sem questionamento torna-se apenas uma constatação. Tenho que ser bem sucedida, tenho que estar na moda, tenho que responder à altura de tal coisa. E daí? Que altura é essa que às vezes parece esbarrar no céu? Não saber o que fazer com isso é natural, mas envolve uma série de riscos e coisas que crescem com a intempestividade característica de terremotos. Pânico, fobia, controle. O que viemos mesmo fazer aqui? Ou melhor, o que viemos mesmo sentir aqui? Talvez o estar se projete sobre o ser. Talvez a cabeça tente entender o que nem mesmo o corpo sente. Talvez a carroça esteja na frente das zebras que, lista sim lista não, acordam para decidir se hoje é dia de ser um boi ou uma libélula. Ao menos elas decidem o que querem ser quando acordam.
Ela disse que o quintal era um lugar muito importante para ela. Talvez porque passasse horas de sua infância contando formigas. Talvez porque lá pudesse brincar com seu cão do jeito certo de se brincar com cães. Talvez porque lá ela sentisse que podia engolir o sol, sonho antigo e nunca efetivamente realizado. Talvez porque no quintal houvesse amigos azuis se alimentando de luz. Talvez porque lá ela não precisasse ver o que acontecia dentro de casa. Talvez porque lá fosse o único momento para sentir-se livre, porém segura.
Eu não sei porque aquele lugar era importante. Mas suas lágrimas ao referir-se ao quintal sabem exatamente do que ela estava falando.
Resolvi encará-la. Deu vontade de fazer uma receita e, por mais que meu inconsciente dissesse o contrário, coloquei logo a cebola na tábua. Cortei as pontas e me desesperei. Como sai aquela casca? Fui com a unha mesmo, puxando de pouco em pouco e pensando no quanto de hidratante de framboesa eu teria que passar para tirar o cheiro. Cortei ao meio já com os olhos semi-fechados. As duas metades se acomodaram na tábua. Nessa hora, lembrei que algumas pessoas haviam me dado dicas sobre como encarar a cebola. A Anitta havia dito algo sobre colocar a cebola na água. Só que eu fiquei confusa com a sugestão – que era esfregar que nem ponta de pepino – e achei que tinha que cortá-la embaixo d’água. Não consegui elaborar um método que fizesse com que ela não fugisse ralo abaixo ou que ela não se espalhasse pela pia inteira. Desisti. Resolvi apenas deixar a água correndo na esperança de que aquilo aliviaria meus olhos, mas a consciência ecológica foi mais rápida. Além da vontade de fazer xixi que aquela água estava me dando. Daí lembrei que a Marilda contou que eu poderia cortar a cebola perto de uma boca de fogão acesa, mas fui obrigada a abandonar a idéia ao perceber que a tábua que eu estava usando era de plástico. Se eu colocasse aquilo no fogão, derreteria a tábua e eu teria um fondue de plástico com bastante cebola. O jeito foi ir na raça mesmo, cortando de qualquer jeito e controlando o arrepio. Só consegui cortar numa direção com a faca, depois peguei um negócio cortante que parece uma meia-lua e terminei o trabalho.
Ufa! A luta valeu a pena. O macarrão ficou bem feliz com o molho de tomates nus, carne e um monte de ervas.