Muita gente não sabe, mas há 14 anos atrás eu comecei a sapatear. Desde então, nunca mais parei. É fato que a intensidade oscilou, mas a vida é assim. Não é para sempre que você vai poder ver Chaves depois do almoço e dormir até a hora de ir para a aula de dança. De qualquer jeito, o fascínio pelo movimento dos pés ainda é forte. Quando vejo sapateado parece que sobe um negócio, um brilho, um arrepio. Aquela frase na cabeça que fica repetindo: que irado.
Hoje, 25 de maio, é dia do sapateado. Mais precisamente, dia do nascimento do Bojangles, o Bill Robinson. Bojangles começou a dançar com 6 anos e marcou a história com seus pés negros. Aliás, a famosa cena que Shirley Temple protagoniza ainda criança é na companhia de nada mais nada menos que Bojangles.

Bojangles e Shirley Temple eram adeptos do sapateado americano, a mesma linha que eu sigo. Na verdade, a linha mais famosa, a que todo mundo identifica como sapateado. Mas o sapateado possui variações. O sapateado americano tem como origem um mix de tamancos holandeses com a percussão africana e utiliza sapatos de madeira com chapinhas de metal. Já o irlandês usa sapatos de madeira sem chapinha e possui uma postura marcante e bem rígida. O flamenco é um sapateado espanhol, com sapatos de madeira sem chapinhas também (com exceção de dançarinos que utilizam um metal só no calcanhar). São técnicas bem distintas. Se me jogarem numa aula de irlandês ou de flamenco, tenho certeza que o choque vai ser grande.
Outros tipos de sapateado são o boot dance e as danças circulares brasileiras. O boot dance é uma técnica que surgiu na África, feita com botas de borracha – que nem aquelas galochas que você usava quando era criança. As danças circulares brasileiras também são influenciadas pelo sapateado, seja em ritmo de coco, baião, maracatu, cavalo marinho, jongo e por aí vai. Normalmente são feitas com os pés descalços ou com sapatinhos leves. Acho que conflitam mais com as três técnicas que apresentei acima por serem feitas em direção ao chão, enquando as outras podem ser feitas ‘pensando para cima’. Lembro de ter visto uma farra do boi na Paraíba com um belo sapateado. Eu estava sentada no chão, maravilhada com aqueles pés todos juntos fazendo som e empoeirando as faixas coloridas das roupas.
Bom, já falei escrevi demais. Agora, como comemoração, deixo uma cena de duelo que eu adoro entre negros do sapateado americano e brancos do sapateado irlandês. Sou suspeita para falar, mas tirem suas próprias conclusões sobre cada técnica:
[video]http://www.youtube.com/watch?v=ShgAXNHIEbs[/video]
Para quem ainda não overdosou, essa compilação de cenas é linda. Vale a pena curtir cada passinho e performance. E para quem não overdosou e, ao contrário, se empolgou muito, deixo uma dica preciosa. A Cia Vatá, comandada pela cearense Val Pinheiro, fará shows em São Paulo de 12 a 14 de junho. Pense numa mulher que sapateia muito bem do tipo que dá-aula-em-Nova-Iorque. Agora pense que essa mesma mulher é filha de mestre de reizado, ou seja, praticamente o símbolo da cultura de raiz brasileira. Junte a essas duas características um tiquinho de insanidade e muita paixão. Pronto, essa é a Val Pinheiro. Já tive aulas com ela, mas nunca vi o espetáculo ao vivo. Ou seja, sigam me os bons.