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a virtuose do palhaço é o domínio do erro

Aprendizado é o momento em que recebemos o material cognitivo. Maestria é o momento em que testamos suas possibilidades. Virtuose é o momento em que sabemos perfeitamente o que fazer com isso.

Em seu aprendizado, o palhaço busca sempre estar zerado, como se recebesse a informação pela primeira vez. Na maestria, o palhaço procura testar o que é possível com aquilo, sem deixar de lado o impossível. Por fim, na virtuose, após tantas experimentações absurdas, ele está pronto para lidar com o mais bonito e inspirador dos eventos: o erro.

Mummenschanz

Ando estudando máscaras. São poderosas que só.

atenção senhores passageiros, dirijam-se ao palhaço mais próximo

Muito bom que o nariz de palhaço esteja sendo usado para combater lugares de alto stress: do hospital ao aeroporto.

Esse povo é da Esquadrilha da Risada (vulgo “amigo meu”).

ressaca = gosto de cabo de guarda-chuva

Foto de Michellets.

dia do palhaço

O palhaço é obstinado no processo, ele faz de tudo até chegar lá. Eu digo “até” porque muitas vezes o até é mais importante do que o “lá”. Para o dia do palhaço, escolho essa cena maravilhosa com dois grandes palhaços, Buster Keaton e Chaplin, na qual eles fazem uma sinfonia. Coisa mais linda a precisão dos movimentos, o jeito como eles te fazem acreditar naquilo. Primeiro eles precisam tocar, se desentendem, tentam entender os instrumentos. Se desentendem com o próprio corpo. Tudo parece estar desafinado.

Quando conseguem tocar, se emocionam, ficam tristes e felizes, são contágio puro. É inspirador.

vai em frente

A energia estava esquisita no corredor do hospital. O médico logo avisou que palhaços não seriam bem-vindos no quarto 1. Naquele quarto, a família estava tendo seus últimos instantes com a menina que iria falecer. Mesmo com a notícia, seguimos mexendo com o povo pelos quartos e corredores. De repente, uma cena surgiu. Uma mulher veio lá do fundo do corredor e nós tocamos, numa espécie de “trombetinha”, a marcha nupcial. Ela chegou até nós e logo estava casando com o palhaço. Recebeu um buquê de flores em suas mãos e seguiu caminhando. Quando chegou na esquina do corredor, me perguntou: o que eu faço agora? Respondi: vai em frente.

Ela seguiu com o palhaço até o fim do corredor quando uma médica me alertou: ela era a mãe da menina que estava morrendo.

Entendi que a sua dúvida – o que eu faço agora? – não era sobre o casamento.

entre palhaços e crianças

Pense na dificuldade de se esconder numa sala sem nenhum móvel. No entanto, a menina acredita piamente que está escondida, que ninguém a vê. Palhaços também funcionam assim.

Vídeo via Fá Resende.

fora e dentro

Dica dele, me lembrando sempre que é necessário olhar para fora.

influência do Harry Potter

Enfermeira: Olha, vocês podem continuar o papo, finjam que eu sou invisível, tá?

Palhaço: Beleza!

Paciente: Palhaço, também quero te ver invisível!

Palhaço: Mas se eu estiver invisível, como você vai me ver?

sofia

dsc_5925Foto: Manjoca e Sofia

Raí tinha poucos anos e já estava careca. A máscara de hospital só nos deixava perceber suas reações por meio dos olhos, que ora franziam de sorriso e ora dispersavam em outro canto. Viu uma outra criança pelo vidro e nos chamou para vê-la. Quando chegamos, a outra criança já havia saído, mas ele continou com olha-a-criança, olha-a-criança.

Logo em seguida, Raí perguntou o que havia na mala de Manjoca. Sem hesitar, ela respondeu uma criança! Contou-lhe que se chamava Sofia e que em breve eles iriam se conhecer. Raí ficou cabreiro enquanto Manjoca caminhava até a mala. Como poderia haver uma criança lá? Em sua expressão era possível ver a desconfiança e, antes que ele se perdesse em seu próprio olhar, reforcei sua indagação é mesmo, como é possível haver uma criança aí?

De repente, por trás da mala, vimos uma mãozinha surgindo. A mão deu tchau e toda a dúvida de Raí foi embora. Ele sorriu por trás da máscara e retribuiu o tchau de Sofia. Tornaram-se amigos. Abraçou-a, beijou-a e pediu para pegá-la no colo.

Manjoca: Ih, não dá, por causa da mão. (no caso, a dela, que sustentava Sofia)

Eis que Raí responde:

Raí: Que mão?

Para Raí, Sofia era realmente uma criança dentro da mala e – por que não – sua mais nova amiga.