Viva os negativos perdidos (e achados depois de anos)!
Category archives: Clown
fumagalli
22Feb11Eu não aguento a cara do Fumagalli, é muito boa. A cena abaixo é uma gag famosa de circo tradicional chamada “Abelha, abelhinha”.
charlie rivel
20Feb11Entrou no picadeiro e, antes que começasse a fazer sua cena, uma criança começou a chorar desesperadamente na platéia. Charlie não conseguia dar início à cena pois o público prestava mais atenção na criança do que nele. Aproximou-se do menino para tentar fazer um carinho e acalmá-lo, mas isso só fez com que ele chorasse ainda mais, provocando uma espécie de riso constrangedor na platéia. Charlie foi então ao centro do picadeiro, sozinho, e começou a chorar desconsoladamente. O menino, surpreso, fixou os olhos naquela figura e parou de chorar. Charlie, ainda chorando, caminhou até a criança que, solidária, deu-lhe a própria chupeta. Charlie então parou de chorar.
*Charlie Rivel é o nome artístico de Josep Andreu i Lasserre, um palhaço catalão. Nasceu em 1896 e morreu em 1983, sendo considerado um dos melhores palhaços do circo espanhol.
pra que serve um palhaço?
06Feb11Já tem um tempo que eu trabalho com a máscara do palhaço e muitas vezes esqueço de um certo poder que ela tem. Hoje, no hospital, estávamos em três. No meio de um corredor, uma roda de adultos (uns sete) se divertia conversando conosco. Eis que surge uma mulher vindo na direção oposta. Uma das mulheres do grupo pergunta à ela, ainda um pouco distante de nós: Ué, vocês não tiveram alta? Ela olha para mim, caminha em minha direção e começa a chorar. Sem jeito, a abracei o mais forte possível. Esperei os soluços passarem por uns cinco ou dez minutos – nessa hora eu já nem sabia mais meu nome, muito menos quanto tempo havia passado. Vagarosamente, consegui a levar para o outro canto do corredor, tentando tirar o foco de atenção daquelas sete pessoas em cima dela. O mais louco de tudo isso é que não trocamos nenhuma palavra. Foram apenas lágrimas; eu, por questão de segundos, não liberei as minhas.
O nariz do palhaço é a máscara da permissão, do excesso, da liberdade. Por mais que o palhaço costume trabalhar bastante o riso ou a graça, dessa vez o que foi ativado foi a descompressão. Ela precisava liberar aquilo e, talvez, a energia de um nariz vermelho trouxe essa permissão. Havia algo de muito guardado lá, algo de muito consolidado. Mas a gente nem sempre é fortaleza o suficiente para segurar as próprias paredes.
Mais tarde, fazendo a ronda dos quartos infantis, entramos no quarto dela. O filho, um bebê bem pequeno, chorava um tanto agoniado. Ao som de uma caixinha de música, ele foi ficando mais calmo com as bolhas de sabão que dançavam pelo quarto. Parou de chorar e a mãe sorriu, aliviada.
Louco como a mesma máscara ora faz chorar, ora faz rir.
fingiu
10Dec10Fingiu que era pólen para visitar dentro da flor. Fingiu que era sonho para que o outro, ao acordar, não percebesse que havia terminado. Fingiu que era bolha para sentir o que era alma. Fingiu que estava perto porque é mais cheiroso que estar longe. Fingiu que era noite só pra dar bom ao dia. Fingiu que era dança para dar ao corpo um prazer. Fingiu que era criança porque isso, por si só, já basta.
Fingiu porque percebeu que, ao fingir, deixava seu cérebro mais confortável ao fazer coisas erradas.
escute antes de agir
27Oct10Era um bebê cheio de deformidades e com o corpo totalmente torto. No começo, eu não sabia ao certo se o fato de ele estar meio torto era por conta de sua doença. Tentei chamar a sua atenção, fazê-lo reagir a qualquer estímulo e nada. Ele continuava com a coluna torta e com o olhar longe. Segui o seu olhar e finalmente percebi. Atrás de mim havia um biombo e, atrás dele, uma televisão. O menino só enxergava uns 10% da tela e, mesmo assim, tinha que ficar todo torto para conseguir ver esse pedacinho. Puxei o biombo para o lado e, imediatamente, ele abriu um sorriso. Endireitou as costas e ficou, feliz da vida, assistindo televisão.
Muita gente acha que palhaço tem que fazer graça. Mas a real é que a satisfação está mesmo em escutar o que o outro precisa e, na medida do possível, interferir.
me ame, tender
19Aug10Era uma vez um quarto de hospital que tocava um daqueles CD’s que fazem música de adulto na versão bebê. E tava tocando Love me tender instrumental para bebês.
Daí que o Frederico começou a cantar a música em português, com tradução livre. E nessa tradução ele era apaixonado por um tender. Sim, aquele bichinho que a gente come. No meio da música, o tender foi personificado por Brigitte, nossa galinha de borracha.
Foi uma cena linda e doce. E hoje eu não consigo mais ouvir essa música sem lembrar dessa cena.
Desenho de Fernando Weno e post inspirado por minha sósia muito fofa @mariagranola
At least I’ll have my Clementine
01Jul10Feche os olhos e escute. Deixe o seu corpo se comportar da maneira mais natural possível, ou seja, fazer o que der vontade.
Viciei nessa música.
príncipe na veia
20Jun10Quarto de hospital. O menino, os pais, os palhaços. Um soro no chamado “cachorrinho” (aquele lance de apoiar soro).
***
Menino: Sabe, tem uma bruxa que vem voando e entra pela minha boca. Ela desce e acorda os dragões, que começam a soltar fogo dentro da minha barriga. Só que, nessa hora, eles colocam aquilo em mim (aponta para o soro) que libera os príncipes direto pela minha veia. E os príncipes matam os dragões.
***
Rá. Pega essa, dragão.
definições inesperadas
22Apr10Estávamos em três narizes vermelhos no quarto da criança, em meio a um grande papo sobre a ordem correta de tomar banho.
De repente, entra a enfermeira e quebra o momento dizendo para a criança:
- Olha só, você tem visita!
- Não, não tenho visita.
- Ué, eles são o quê?
- Eles… são palhaços!
Ai ai enfermeira, você não percebeu? Somos palhaços.

