Era uma vez um quarto de hospital que tocava um daqueles CD’s que fazem música de adulto na versão bebê. E tava tocando Love me tender instrumental para bebês.
Daí que o Frederico começou a cantar a música em português, com tradução livre. E nessa tradução ele era apaixonado por um tender. Sim, aquele bichinho que a gente come. No meio da música, o tender foi personificado por Brigitte, nossa galinha de borracha.
Foi uma cena linda e doce. E hoje eu não consigo mais ouvir essa música sem lembrar dessa cena.
Quarto de hospital. O menino, os pais, os palhaços. Um soro no chamado “cachorrinho” (aquele lance de apoiar soro).
***
Menino: Sabe, tem uma bruxa que vem voando e entra pela minha boca. Ela desce e acorda os dragões, que começam a soltar fogo dentro da minha barriga. Só que, nessa hora, eles colocam aquilo em mim (aponta para o soro) que libera os príncipes direto pela minha veia. E os príncipes matam os dragões.
Aprendizado é o momento em que recebemos o material cognitivo. Maestria é o momento em que testamos suas possibilidades. Virtuose é o momento em que sabemos perfeitamente o que fazer com isso.
Em seu aprendizado, o palhaço busca sempre estar zerado, como se recebesse a informação pela primeira vez. Na maestria, o palhaço procura testar o que é possível com aquilo, sem deixar de lado o impossível. Por fim, na virtuose, após tantas experimentações absurdas, ele está pronto para lidar com o mais bonito e inspirador dos eventos: o erro.
O palhaço é obstinado no processo, ele faz de tudo até chegar lá. Eu digo “até” porque muitas vezes o até é mais importante do que o “lá”. Para o dia do palhaço, escolho essa cena maravilhosa com dois grandes palhaços, Buster Keaton e Chaplin, na qual eles fazem uma sinfonia. Coisa mais linda a precisão dos movimentos, o jeito como eles te fazem acreditar naquilo. Primeiro eles precisam tocar, se desentendem, tentam entender os instrumentos. Se desentendem com o próprio corpo. Tudo parece estar desafinado.
Quando conseguem tocar, se emocionam, ficam tristes e felizes, são contágio puro. É inspirador.
A energia estava esquisita no corredor do hospital. O médico logo avisou que palhaços não seriam bem-vindos no quarto 1. Naquele quarto, a família estava tendo seus últimos instantes com a menina que iria falecer. Mesmo com a notícia, seguimos mexendo com o povo pelos quartos e corredores. De repente, uma cena surgiu. Uma mulher veio lá do fundo do corredor e nós tocamos, numa espécie de “trombetinha”, a marcha nupcial. Ela chegou até nós e logo estava casando com o palhaço. Recebeu um buquê de flores em suas mãos e seguiu caminhando. Quando chegou na esquina do corredor, me perguntou: o que eu faço agora? Respondi: vai em frente.
Ela seguiu com o palhaço até o fim do corredor quando uma médica me alertou: ela era a mãe da menina que estava morrendo.
Entendi que a sua dúvida – o que eu faço agora? – não era sobre o casamento.