Category archives: Caraminholas

dúvida

E se era uma tartaruga, por que pensava sempre que seria um hectar? Mal sabia escrever hectar, já que, quando as pessoas falavam disso, só o diziam no plural ‘hectares’. Mesmo assim, não lhe saía da cabeça essa história de ser um hectar. Porque seria muito comum uma tartaruga querer ser um leopardo com toda sua velocidade, uma lagartixa com seu corpo molinho ou até mesmo um peixe com um pescoço sem rugas. E antes mesmo de se preocupar se peixe tinha pescoço, a tartaruga esquecia de se perguntar se existe a palavra hectar.

Quando descobriu que o correto era hectare, ignorou. Era mais fácil querer ser algo que não existe.

de olhos brilhantes

Confessar amores é quase tão gostoso quanto vivê-los.

suspiro

Suspiro é quando alguém dá pause e a cena, estática, mostra sua melhor composição na tela.

Aí rola aquela sensação boa de contentamento.

carta a celso cruz

Caro Celso,

Você não sabe, talvez não tenha a menor idéia, mas você é o responsável por meu gosto pela escrita. Tudo começou naquele curso de redação, escolhido por mim entre tantos outros. Não posso dizer que fui decidida na escolha. Redação era algo do meu interesse, mas eu poderia ter optado por um curso de marketing-de-luxo ou um curso de 5-técnicas-para-fidelizar-seu-cliente. Talvez me encantasse o fato de você atuar em campos tão diferentes como a ESPM e a Praça Roosevelt. Talvez fosse o fato de que você dava aula com uma calça azul pintada a mão e parecia um pintor que acabara de finalizar um quadro. Talvez não fosse nada disso. Mas lá estava eu inscrita.

Logo na primeira aula você me contou que eu poderia escrever em primeira pessoa. Eu já não sabia mais o que era isso. Recém saída de vestibulares e métodos aristotélicos de construção de idéias, me sentia quase que herege ao juntar as vogais ‘e+u’ num texto. Isso era a morte ou, na época, 3 pontos a menos na prova. Enfim, eu estava livre desse mal.

Pode parecer piegas, eu sei, mas escrever em primeira pessoa é mais do que um recurso de linguagem. Você se torna obrigado a reconhecer qual é essa primeira pessoa e o que ela tem a dizer. Você coloca a sua pessoa em primeiro plano e vai descobrindo como ela se relaciona como o mundo. Tem gente que chama isso de terapia, eu chamo apenas de auto-conhecimento-diversão. E ao longo do curso você me trazia referências, maneiras de contar coisas. Algumas eu não gostava, confesso, mas se não as fizermos nunca vamos saber do que realmente gostamos.

Já no fim do curso, você escreveu uma dedicatória pra mim num livro seu. Nela estava escrito:

Inteligência, humor, talento e aquela “pegada” que não nega as origens.

Além de me mostrar que havia uma pessoa por trás das letras, você ainda me deu o humor de presente. Senti uma vontade imensa de te abraçar e de conversar com o Woody Allen sobre isso, dividindo angústias e um bagel com cream cheese. Acabei fazendo apenas a primeira coisa.

Hoje, 7 anos após o curso, eu entendi que sempre há uma primeira pessoa por trás dos bons textos. Nem sempre essa pessoa habita um único corpo, pois pode perfeitamente passear entre personagens, idéias, criações ou viagens. Mas se essa pessoa não abraçar o texto, sinto muito. Não há graça num corpo sem alma.

Há tempos que quero escrever uma carta para você, mas nunca o havia feito. Aqui fica meu muito obrigada. Pelas palavras, pelas pessoas – inclusive a minha -, pelos rascunhos e pelas sensações.

Um beijo

MaWá

PS: a propósito, um bom texto pode ser melhor que um Häagen-Dazs. Só depende de como as coisas são colocadas.

bolhas estagiárias

A bolha de sabão nasce de um sopro leve. Sem metáforas, por favor . Às vezes um sopro é apenas um sopro, daqueles que sai do duo pulmão-língua, passa pelos lábios e chega ao mundo. E faz a bolha percorrer o trajeto indefinido, como uma dança com fluência mas sem saber onde termina o palco. Só que o que ninguém sabe é que, antes desse sopro de vida, a bolha tem que fazer um cursinho nas garrafas de água com gás. Já repararam que na bula dessas águas não estão descritos os ingredientes? Eu nunca vi um contém água e gás-seiláoquê-ol. E isso acontece justamente porque as pessoas não iriam gostar de saber que estão tomando água com bolha de sabão. Por isso os gerentes de produto deixaram esse detalhe oculto. Enquanto estão na garrafa, elas aprendem, por exemplo, a controlar a velocidade de vôo. As mais novinhas sobem muito rápidas e, por consequência, em linha reta. Elas não são capazes de controlar o peso do próprio corpo para fazer dança com ele. Depois que aprendem a controlar isso, começam a brincar com as rotas. Quase que nem gota de chuva que cai no vidro do carro e vai passeando nos olhos das crianças do banco de trás. Eu até pensei em inventar que esse seria o próximo estágio da bolha de sabão – ser gota de chuva no vidro – mas pensei: meu leitor não é burro. Nunca poderia subestimá-lo ou tentar enganá-lo com tamanha estapafúrdia. Até porque, se isso ocorresse, as nuvens que se formassem após essa chuva flutuariam pra sempre e pra cima, sem mais nos molhar. E isso desestabilizaria tudo aquilo que a gente aprendeu na escola de ciclo da vida-água-luz. Mas voltemos à escola da bolha de sabão. O próximo passo é simples. Ela deve subir mais vagarosamente procurando ocupar todos os cantos da garrafa (técnica comumente utilizada em aulas de teatro). Tal exercício amplia a espacialidade da bolha para que ela possa voar livre, leve e solta. Para terminar, as bolhas passam por um salão de beleza além-tampinha para adquirir aquela cor azul-furta-cor típica das bolhas de sabão. Depois disso, é só torcer para ser assoprada com carinho.

Foto tirada pelo Matt.

inventando horas

Era um dia com cara de noite, assim, sem muita definição de hora. E isso lhe dava aflição, esse adjetivo do tempo de correr independente de qualquer outra coisa. Ele não poderia jamais controlar aquilo. Mas podia controlar seus próprios tempos e esquecia disso. Simplesmente não lembrava de reparar se luz forte de manhã lhe incomodava muito a vista. Se o banho é mais pro quente ou mais pro frio. Se é certo comer vegetais no café da manhã. Se é muito errado não fechar todos os trincos de casa. E sem perceber essas coisas já considerava o tempo insuficiente para acolher todos os seus tempos.

Mal sabia ele que havia muito mais a se fazer. Inclusive abandonar a mania de achar que o tempo não cabia nele.

celamur

Música para dançar com edredons embutidos no corpo, em cima de um tapete felpudo e colorido. Entre um pulinho e outro, as cenas bem que poderiam passar em câmera lenta, que nem vida mostrada em comercial. A dança começa no fim do dia quando ainda tem sol. E vai até alguma hora que eu não sei qual é porque, nesses momentos, chegamos a perder a noção de minutos e segundos. Algumas bundas despreparadas  – a maioria, diga-se de passagem, porque bundas normais não são preparadas – tocarão o chão nas inúmeras quedas, seguidas de gargalhadas e mãos que surgem para te ajudar a levantar. Ou mãos que descem até você e, ao invés de te levantar, recostam no seu rosto e carinhosamente, sorriem com a luz do sol baixinha batendo no olho.

:: Donos da música – Banda Gigante

canibalismo gelado

A tartaruga já não queria mais o resto do sorvete e resolveu oferecê-lo ao elefante. Só que o elefante ficou na dúvida se conseguiria aspirar somente o sorvete da mão da tartaruga que, aliás, deve ter outro nome que não ‘mão’. Mas isso não importa agora. O elefante não queria de jeito algum aspirar a mão da tartaruga e muito menos a tartaruga inteira. Não por bondade ou carinho alheio, mas por ser vegetariano. E um vegetariano que se preze não come carne de tartaruga. Nem de ninguém. Por isso o elefante relutava, salivando enquanto mirava o sorvete de morango da tartaruga.

Sem nenhuma solução, o sorvete derreteu e o elefante entristeceu, enquanto a tartaruga, surpresa, comemorava. Ela havia ganhado uma piscina doce e rosa.

engole o choro

Segue o passo a passo por mim instituído para ‘engolir o choro’ de maneira correta e, acima de tudo, digna. Em primeiro lugar, trabalhe a qualidade do seu choro. Pense que a melhor característica que um choro pode ter é ser autônomo e a pior, ser remelento. Construa um ambiente favorável para que ele saia sem repressão ou qualquer tipo de rigidez. Se ele sair direito, será mais fácil para você engolí-lo sem nenhuma sequela emocional. Uma vez aceita a condição desamarrada do choro, deparamo-nos com o objetivo inicial: engolí-lo.

A primeira – e mais básica – maneira de fazer isso é inclinando a cabeça levemente para trás, como quem quer ver a própria lombar e não consegue. A sensação é parecida com a da posição de ter o cabelo lavado no cabeleireiro. Solte as lágrimas, uma a uma, mirando na parte interna da bochecha, também conhecida como parte externa do nariz. É comum o envesgamento dos olhos nessa hora. Assim que a primeira gota de choro atingir seu lábio, comemore sem sorrir. Se você sorrir nessa hora, todo seu trabalho de equilíbrio e direcionamento da gota irá por água abaixo. Literalmente.

A outra maneira de engolir o choro é para um público mais avançado. Consiste em pressionar os músculos internos da barriga para que o choro saia impulsionado com muita força, tal qual o choro de um palhaço de circo. Tal aguaceira é permitida quando contraímos os músculos abdominais de maneira semelhante ao ato de eliminar gases, só que sem eliminá-los. Você até pode eliminar um ou outro neste processo, mas não conte a ninguém e faça cara de alcachofra caso desconfiem. Uma vez atingido o nível de pressão, ordene gentilmente a outro alguém que segure um copo na sua frente. Esse alguém deve ser capaz de encestar suas lágrimas dentro do copo para que, posteriormente, você seja capaz de bebê-las.

Por último, sobra a mais avançada técnica de engolir o choro, destinada ao público ninja. Ela é uma mistura da primeira com a segunda técnica e costuma ser chamada de quarta técnica. É necessário impulsionar os músculos abdominais e inclinar a cabeça para trás, de modo a construir um chafariz que termine exatamente no seu buraco negro bucal. Como essa técnica é a mais difícil, liberamos o desenho acima que facilita o entendimento.

Observação: neste método, por conta de imaginação supersticiosa, a terceira técnica é sempre pulada.

velhinho de bagdá

Saí latindo e o velhinho de Bagdá não queria saber meu nome. Mesmo assim insisti, esperando que ele me retribuísse com uma história incrível de vida daquelas que faz a gente ficar arrepiado. Só que ele novamente se recusou a saber meu nome, como aqueles seres que não interagem na Viagem de Chihiro. Para acalmar minha própria cabeça, preferi acreditar que ele simplesmente não tinha uma história para me contar e pronto. O mundo é mais bonito quando acreditamos no que queremos acreditar. E quando desprezamos racionalmente a tal da atenção seletiva. Aprendi isso com um professor, o Clóvis, ele tinha um jeito debochado de ser. É todo mestre, doutor, pós, acadêmico-mor, mas simples que só. Conta as histórias da vida para exemplificar os teóricos, todos eles tão teóricos. Esse sim é um cara vestido de histórias interessantes. Ainda acho isso complicado, pois torna interessante uma história quem a conta. Melhor pensar que o velhinho de Bagdá era mudo. Assim não poderia me contar a sua grande história de vida enquanto eu latia meu nome para ele. Se bem que mudos podem contar ótimas histórias, tanto os mudos intencionais que-nem-mímico quanto os mudos mudos. É um olho que vem e vai piscando palavras que se enredam e se completam e se harmonizam. Mudos contam histórias sim. O velhinho de Bagdá não.

Talvez ele só estivesse apertado para ir ao banheiro.

Talvez ele não goste de pessoas que latem.

Talvez.