18Jan10
A tua sorte é que eu te amo. Mesmo quando eu ouço o que eu não quero – ou será que apenas penso a mais? – percebo que de nada adianta resistir. Chegam os tropeços, vão os detalhes, mas tem um perfume que não sai. Ficou preso dentro de algum lugar e envolve feito flor ao vento. Quantas vezes a gente consegue esquecer alguém, de verdade? São poucas. E nas muitas que não se esquece, resta decidir o que fazer com o cheiro que fica. É possível rejeita-lo passando qualquer limpa-dor. Em vão. Uma vez lá, ele não sai. Outro caminho é aproveita-lo. Daquela maneira linda e precoce de ser, daquele jeito de paixão infantil que faz qualquer chuva ser bonita e tranqüila. Qualquer céu ser inspirador. Qualquer amor ser simples. Parece um caminho mais acertado que o anterior.
Por isso, exatamente por isso, a tua sorte é que eu te amo.
11Nov09
É que às vezes a gente tem que lidar com umas coisas definitivas. Jogar com as possibilidades, nesses casos, é extremamente confortável.
Difícil é quando chega finalmente o definitivo que vai contra a sua vontade.
Aí sim é que deve doer.
13Sep09
Engolir luz é uma tarefa complicada. Há quem colha diretamente do chão, há quem simplesmente pegue no ar. A verdade é que engolir luz é bom demais. Ela desce bem, deixa teu estômago fresco e o coração iluminado. O corpo de dentro gosta quando comemos luz. Dá pra enxergar as coisas melhor por lá. A diferença entre comer luz e comida normal é que a luz sai por qualquer lugar do corpo. Já viu alguém com brilho nos olhos? Comeu luz. Pele reluzente? Comeu luz. Idéias brilhantes? Comeu luz.
Só não come luz quem não quer se enxergar. Ou quem ainda não descobriu que comer luz pode clarear muita coisa na vida.
19Jul09
Cheguei tarde, ele já não estava mais lá. Fiquei imaginando como seria, já que é do ser humano tentar imaginar sempre o que não consegue ver. Mas é fato que eu nunca conseguiria tomá-lo da forma correta se é que isso existe. A gente tem que sempre fazer as coisas da forma correta, mesmo ela sendo errada. Isso é esquisito. Não dá pra fazer a coisa errada de forma errada porque aí ela se torna correta. Correta ou incorreta, a forma dele seguia os contornos de Heartbreak Hotel cantada ao vivo por Elvis. Era assim que eu o imaginava, surrupiado por pedaços de luz que, em contato com seu corpo, viravam rosas, azuis, amarelos e nulos. Ele dançava dois pra lá e três pra cá, sem perder o ritmo que havia aprendido com seus parentes de outrora. Tudo nele pertencia a outrora, como se nunca lhe fosse cabível sentir-se contemporâneo. Por não se adequar, foi embora. Deixou-me apenas seu retrato, para o qual cantei Heartbreak Hotel me sentindo o Elvis, sabendo que eu nunca seria o Elvis assim como ele nunca seria meu.

16Jun09
Ele respondeu ao chamado dela que, do seu jeito, havia sido impessoal e prático o suficiente para que ele entendesse que havia pressa. Só que a resposta veio cheia de metáforas e perguntas e ela enrugou a testa. Passado o infinito de cinco minutos bravos, surgiu-lhe um sorriso no rosto. A mensagem era poética, enigmática, nonsense e, por tudo isso, engraçada. Riu.
Se não há tempo para poesia, seu moço, atente. Há algo de errado.
24May09
Inspiração é um bichinho que mora na sua garganta e, dependendo do que você come, ele sai de lá para agradecer.
11Mar09
Nossa, que pergunta mais complexa. Mal sei responder o que eu quero ser, quem dera saber o que eu já sou. Gosto de bolhas de sabão, de mergulhar muito no mar, de sentir o sol entrando na pele. Costumo me expressar bem por fotografias, embora passeie bastante pelas letras encaixadas. Paixão por dança. Capacidade de passar a noite inteira me mexendo e bebendo apenas água. Me sinto bem com um nariz de palhaço na frente. É libertador. Já pensei em morar fora, já pensei em morar dentro, por enquanto fico aqui mesmo. Consigo fazer várias coisas enquanto dirijo, desde almoçar direito – entrada, prato e sobremesa – até tirar sobrancelha. Não entendo quem tem nojo de cabelo quando tá fora do corpo. É mesma coisa, só que desgrudou da pele. Gosto de encontrar o encaixe perfeito entre meu pescoço e o ombro dele. Dá conforto. Tinha a idéia de ser algo maior, mas ando pensando em apenar ser. Tô no meio de um mestrado de semiótica, mexendo os palitinhos no meu cérebro prático. Acho bacana poder estudar e trabalhar. Shakespeare e relatório. Não costumo ficar parada em uma coisa só. Até porque, se eu parar, eu durmo. Sem a menor cerimônia. Viajaria o mundo inteiro se tivesse uma máquina de teletransporte. Enquanto não tenho, acabo voltando pra casa para lavar a roupa. Invento histórias para deixar o mundo mais leve. Elas nos lembram do fundo do baú. E, no fim das contas, é o fundo que guarda as coisas mais interessantes. Exatamente porque se foram pro fundo.
15Jan09
E se era uma tartaruga, por que pensava sempre que seria um hectar? Mal sabia escrever hectar, já que, quando as pessoas falavam disso, só o diziam no plural ‘hectares’. Mesmo assim, não lhe saía da cabeça essa história de ser um hectar. Porque seria muito comum uma tartaruga querer ser um leopardo com toda sua velocidade, uma lagartixa com seu corpo molinho ou até mesmo um peixe com um pescoço sem rugas. E antes mesmo de se preocupar se peixe tinha pescoço, a tartaruga esquecia de se perguntar se existe a palavra hectar.
Quando descobriu que o correto era hectare, ignorou. Era mais fácil querer ser algo que não existe.
14Jan09
Confessar amores é quase tão gostoso quanto vivê-los.
22Dec08
Suspiro é quando alguém dá pause e a cena, estática, mostra sua melhor composição na tela.
Aí rola aquela sensação boa de contentamento.