A gente se conheceu por causa de um professor da faculdade. O trabalho final dele estava aberto a manifestações artísticas. Eu fiz um lance com sapateado. Ela imitou um nordestino em cima da mesa. Ele gostou tanto que fez a gente se apresentar em todas as classes. Ficamos amigas assim.
Admirávamos coisas parecidas. Começamos a frequentar teatros, cinemas, trabalhos em grupo. Começamos a nos frequentar. Percebemos como nossas famílias eram similares, assim como nós mesmas.
Passamos por crises com o trabalho e as escolhas da vida, mas sempre soubemos interpretar bem os papéis. Aliás, talvez foi isso que nos aproximou tanto. A familiaridade com o palco e o jeito como isso se convertia em nossas vidas. Sempre conseguimos ir da reunião de negócios ao surto absoluto pseudo-hippie. E nos dávamos bem em todas as situações.
Aprendemos juntas que o futuro podia ser amarelo. E que se ela pulasse nas minhas costas, eu conseguiria aguentá-la por horas. Entendemos o que era confiança quando ela topou engolir adoçante líquido por minha causa. E quanto nos amávamos por ter alguém que engolisse adoçante líquido por nós.
Conversamos horas e horas pelo telefone, nadamos peladas inúmeras vezes à noite no mar, dançamos como loucas mesmo com os olhares reprovadores. Porque estávamos juntas e era apenas isso que nos interessava. Dormíamos na mesma cama por preguiça de arrumar a outra e tínhamos total liberdade de chutar a outra caso ela incomodasse à noite ou puxasse o cobertor.
Viajamos juntas, fotografamos milhões e milhões de cliques. Ela sempre soube posar e ceder os melhores lados dela. Tanto nas fotos como na vida.
Hoje ela está do outro lado do mundo, um pouco mais pra cima do que costumávamos nos encontrar. Mas é impressionante como ela está todos os dias no meu coração, um pouco mais fundo do que eu podia imaginar.
