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patinha

A gente se conheceu por causa de um professor da faculdade. O trabalho final dele estava aberto a manifestações artísticas. Eu fiz um lance com sapateado. Ela imitou um nordestino em cima da mesa. Ele gostou tanto que fez a gente se apresentar em todas as classes. Ficamos amigas assim.

Admirávamos coisas parecidas. Começamos a frequentar teatros, cinemas, trabalhos em grupo. Começamos a nos frequentar. Percebemos como nossas famílias eram similares, assim como nós mesmas.

Passamos por crises com o trabalho e as escolhas da vida, mas sempre soubemos interpretar bem os papéis. Aliás, talvez foi isso que nos aproximou tanto. A familiaridade com o palco e o jeito como isso se convertia em nossas vidas. Sempre conseguimos ir da reunião de negócios ao surto absoluto pseudo-hippie. E nos dávamos bem em todas as situações.

Aprendemos juntas que o futuro podia ser amarelo. E que se ela pulasse nas minhas costas, eu conseguiria aguentá-la por horas. Entendemos o que era confiança quando ela topou engolir adoçante líquido por minha causa. E quanto nos amávamos por ter alguém que engolisse adoçante líquido por nós.

Conversamos horas e horas pelo telefone, nadamos peladas inúmeras vezes à noite no mar, dançamos como loucas mesmo com os olhares reprovadores. Porque estávamos juntas e  era apenas isso que nos interessava. Dormíamos na mesma cama por preguiça de arrumar a outra e tínhamos total liberdade de chutar a outra caso ela incomodasse à noite ou puxasse o cobertor.

Viajamos juntas, fotografamos milhões e milhões de cliques. Ela sempre soube posar e ceder os melhores lados dela. Tanto nas fotos como na vida.

Hoje ela está do outro lado do mundo, um pouco mais pra cima do que costumávamos nos encontrar. Mas é impressionante como ela está todos os dias no meu coração, um pouco mais fundo do que eu podia imaginar.

abraço quentinho

Quem não gosta?

AbraçoObrigada. Pelo desenho e pelo abraço.

carta a celso cruz

Caro Celso,

Você não sabe, talvez não tenha a menor idéia, mas você é o responsável por meu gosto pela escrita. Tudo começou naquele curso de redação, escolhido por mim entre tantos outros. Não posso dizer que fui decidida na escolha. Redação era algo do meu interesse, mas eu poderia ter optado por um curso de marketing-de-luxo ou um curso de 5-técnicas-para-fidelizar-seu-cliente. Talvez me encantasse o fato de você atuar em campos tão diferentes como a ESPM e a Praça Roosevelt. Talvez fosse o fato de que você dava aula com uma calça azul pintada a mão e parecia um pintor que acabara de finalizar um quadro. Talvez não fosse nada disso. Mas lá estava eu inscrita.

Logo na primeira aula você me contou que eu poderia escrever em primeira pessoa. Eu já não sabia mais o que era isso. Recém saída de vestibulares e métodos aristotélicos de construção de idéias, me sentia quase que herege ao juntar as vogais ‘e+u’ num texto. Isso era a morte ou, na época, 3 pontos a menos na prova. Enfim, eu estava livre desse mal.

Pode parecer piegas, eu sei, mas escrever em primeira pessoa é mais do que um recurso de linguagem. Você se torna obrigado a reconhecer qual é essa primeira pessoa e o que ela tem a dizer. Você coloca a sua pessoa em primeiro plano e vai descobrindo como ela se relaciona como o mundo. Tem gente que chama isso de terapia, eu chamo apenas de auto-conhecimento-diversão. E ao longo do curso você me trazia referências, maneiras de contar coisas. Algumas eu não gostava, confesso, mas se não as fizermos nunca vamos saber do que realmente gostamos.

Já no fim do curso, você escreveu uma dedicatória pra mim num livro seu. Nela estava escrito:

Inteligência, humor, talento e aquela “pegada” que não nega as origens.

Além de me mostrar que havia uma pessoa por trás das letras, você ainda me deu o humor de presente. Senti uma vontade imensa de te abraçar e de conversar com o Woody Allen sobre isso, dividindo angústias e um bagel com cream cheese. Acabei fazendo apenas a primeira coisa.

Hoje, 7 anos após o curso, eu entendi que sempre há uma primeira pessoa por trás dos bons textos. Nem sempre essa pessoa habita um único corpo, pois pode perfeitamente passear entre personagens, idéias, criações ou viagens. Mas se essa pessoa não abraçar o texto, sinto muito. Não há graça num corpo sem alma.

Há tempos que quero escrever uma carta para você, mas nunca o havia feito. Aqui fica meu muito obrigada. Pelas palavras, pelas pessoas – inclusive a minha -, pelos rascunhos e pelas sensações.

Um beijo

MaWá

PS: a propósito, um bom texto pode ser melhor que um Häagen-Dazs. Só depende de como as coisas são colocadas.

lá de dentro

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Se o coração fosse feito de osso, a osteoporose seria o equivalente à saudade.

milek

Ele era o maior adulto que eu conhecia. Para olhar em seus olhos, eu tinha que subir a cabeça como quem busca algo na última estante da biblioteca, aquela que tem livros escritos em línguas difíceis. Ele também falava várias línguas difíceis e se orgulhava de nomeá-las calmamente apontando nove dedos, um por um: polonês, hebraico, russo, idish, espanhol, português, tcheco, esqueci e inglês. Gostava de livros e me deu de presente o hábito de ler antes de dormir. Quando criança, eu não adormecia sem antes ler o gibi do dia, de preferência da Turma da Mônica.

Eu sentava no colo dele, em cima da calça social com vinco amparada pelo suspensório. Me contava dos tempos da Polônia, ah que delícia, quando eles tinham a fábrica de couro. Eu não me lembro exatamente do enredo, mas sempre havia um rio na história. E do jeito que ele sorria ao falar do rio, devia ser um rio bem bonito, perto de casa ou na casa de campo. A família vivia feliz, ele, o irmão, todos empenhados na fábrica de couro que trazia um bom dinheiro. Até que veio guerra. Na guerra, perdemos tudo. Olhava pra baixo, na diagonal, apertava os lábios. Chorava por dentro e às vezes por fora também, até balançar a perna, cantar qualquer coisa em polonês e me oferecer uma mexerica.

Jogávamos tranca por tardes inteiras. Quando éramos somente os dois, ele deixava eu ganhar, até eu reclamar pára e joga direito! Aí ele ganhava uma e, na próxima, a vitória já era minha. Quando jogávamos em quatro, eu queria ser sempre a dupla dele. Primeiro porque ele jogava bem. Segundo porque ele nunca ficaria bravo se eu fizesse alguma besteira no jogo. Tranca é bom, buraco não presta, ele dizia segurando o copo de whisky. E me oferecia o copo para que eu colocasse o dedo mindinho e lambesse o gosto da bebida. O whisky vinha das compras tão adoradas do Free Shop, daquela época em que valia a pena comprar Crest, Lindt e Red Label na passagem pelo aeroporto. Quer dizer, se valia a pena mesmo eu não sabia, mas pela quantidade que era trazida, acho que sim.

Eu gostava também de pentear seu cabelo com o pente fino habitante do espelho do banheiro. Eu devia gostar disso porque era algo impossível de fazer com o meu cabelo sarará-cheio-de-nó. Imagine só passar um pente nele. Era um prazer silencioso cultivado a dedo, tanto em seus cabelos brancos como na minha coleção de pôneis.

Passei um conjunto de tardes ajudando-o quando seu rim já não conseguia mais cuidar dele. Numa quarta-feira, quando eu já batia na altura de seus ombros, fui embora de sua casa à tarde. Ele dormia no sofá e parecia estar doído. Me despedi com um beijo longo sem que ele acordasse. Mesmo que estivesse sofrendo, tive a sensação de que o que ele queria naquela hora mesmo era dormir.

Nessa noite, ele sonhou pra sempre.

Se meu avô estivesse vivo, hoje ele faria 97 anos.