bonitinha

Bonitinha. Está simplesinha, mas bonitinha.

Ela me disse isso assim, de repente, no meio da rua. Nunca a havia visto antes. Seus seios, grandes e sem sutiã, me chamaram a atenção. A camiseta estava larga e suja, a calça também. Morava na rua e, justamente quando eu passei, ela disse isso.

Agradeci o elogio e continuei andando, pensando em quantas vezes na vida recebemos um comentário alheio sem ter pedido. Ao mesmo tempo em que meu raciocínio voou entre pensamentos como “sim, eu realmente sou um para-raios de maluco”, “nossa, ganhei uma personal stylist na rua” e “é verdade, é simples mas é bonito”, ouvi o término de sua fala:

Posso falar do seu vestido pois, quando eu era gente, eu desenhava roupas.

Quando eu era gente. Ela disse isso com um certo tom de normalidade, com a mesma intenção que formulou a frase a respeito do meu vestido. A mesma frase que me taxava como simplesinha mas bonitinha lhe tirava o primordial para um ser humano se considerar gente: a identidade. A partir de que momento ela deixou de ser gente? A partir de que momento ela deixou de desenhar vestidos? A partir de que momento ela passou a se vestir com roupas que não lhe cabem? Ou melhor, a partir de que momento aquele ser humano deixou de ser mulher para tornar-se não-gente?

A realidade muita vezes aparece no meio da rua, assim, gratuita. Simples como o meu vestido. Nem sempre tão bonitinha.

 

Texto feito originalmente para o LuluzinhaCamp, mas achei que valia colocar aqui também.

3 Comments

  1. Patinha

    Voce sempre me surpreende.

  2. Isso nos coloca num divã, numa análise de conceitos, de pontos de vista. Não dá vontade de voltar lá e conversar mais com essa “desenhadora de vestidos”? Eu voltaria…

    As pessoas são como caixas de música: possuem um personagem que dança conforme uma música pré-determinada e nunca sabemos qual é a canção ou o formato do pequeno boneco. Subestimar nunca é o caminho e sim ter curiosidade sobre cada caixa/pessoa.

  3. Marianne

    Muitas vezes o que leio por aqui me permite matar a saudade ou até mesmo reviver coisas sem ter vivido contigo flor.
    Especial o trecho sobre o comentário espontâneo no meio da rua. Me soa comum, me permite pensar que temos muito em comum.
    Para não perder a viagem: adorei ontem. Te tenho sempre você por perto.

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