entre uma perna e outra, grandes passos

Deusa ficava triste ao ver o esforço do pai para dar de comer a ela e aos seus irmãos. Começou a trabalhar com 12 anos, para ser uma a menos para o pai. Arranjou logo uma vaga de empregada doméstica na casa de uma professora que ela adorava e, por uns trocados aqui e umas roupinhas ali, passaram-se quatro anos. Com 16, já fazia mais de ano que ela queria morar em São Paulo. Interior do Rio Grande do Norte não serve pra mim. Falou tanto nisso que o pai cedeu. Mas com uma condição: ela não podia ir para lá sem o curso de datilografia. Ele acreditava que era isso que podia dar futuro. Deusa se matriculou no curso. O plano era completar o curso até a data de seu aniversário de 18 anos, já que o pai daria a passagem de presente. Mas só com o diploma. A professora logo adiantou: ih, não vai dar, os alunos já passaram de 100 lições, você não vai conseguir alcançá-los. Engano dela. Deusa passou manhãs, tardes e noites em aula. E, recém completados os 18 anos, lá estava ela com o diploma e as passagens na mão.

Chegou na capital. Queria trabalhar em escritório. Foi parar num caixa de padaria. Eles pagavam 3 cruzeiros e essa era a média salarial das irmãs. Sabe, para um primeiro emprego na capital, foi bom. Ao vê-la insatisfeita, um cliente da padaria sugeriu uma vaga de escritório para ela. Fez a entrevista e a resposta viria um mês depois, com muita chance de dar certo. Animada, ela pediu as contas da padaria passados os 30 dias. E, em seguida, ouviu um “não” do escritório, que havia mudado de opinião. É, a vida na cidade não é fácil.

Um vizinho, sabido da situação, comentou: Deusa, já pensou em trabalhar como depiladora? Ela nunca havia depilado nada. Nem dela, nem de ninguém. O vizinho contou-lhe de um instituto que estava contratando e que queria treinar gente. Gente que nunca havia feito isso e, por conta da inexperiência, ganharia “apenas” 10 a 12 cruzeiros. Pelo visto, depilação tinha mais valor agregado que pães naquela época. Combinou com o vizinho que iriam juntos na manhã seguinte até o instituto.

Na manhã seguinte, o vizinho não atendeu a porta. Deusa voltou para casa, sentou, esperou. Foi lá de novo e nada. Lembrou-se do nome do empregador e da rua do instituto e não pensou duas vezes. Foi até lá e se apresentou sozinha. Umas duas horas depois encontrou seu vizinho lá, conversando com o dono, dizendo que ela era nordestina e que nordestinos trabalham bem, pois vêm aqui só pra trabalhar. O dono aceitou e Deusa entrou no ramo. Seus olhos brilharam ao ver pela primeira vez uma depiladora espalhando a cera na perna de uma mulher.

Hoje faz 17 anos que Deusa é depiladora e é quase impossível conseguir horário com ela. Ontem eu consegui duas coisas: horário pra mim e essa história – gostosa que só – de ouvir e contar.

2 Comments

  1. juliana

    é a Deusa da Vanessa?

  2. MaWá

    Sim, Ju, é a própria!

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