Ele disse que eu tinha que escrever a receita, só que eu não sei quanto eu coloquei de cada coisa. Resolvi aprender a cozinhar no modo old school, colocando um pouquinho disso, um pouquinho daquilo e experimentando. O que, de certa forma, me impede de descrever a receita ipsis literis aqui. Mas vamos lá. Comecei com o alho. Nunca quebrei dentes de ninguém, mas me parece que no mundo dos alhos isso é comum. Quebrei-lhe quatro dentes de uma vez só e achei que a dose de violência já era o suficiente. Passei então ao drama da cebola que, para não ser repetitiva, apenas indico o link do momento aqui. Foram pra panela, a cebola e os ex-dentes-agora-caquinhos de alho, junto com óleo e um pouco de azeite. A mistura de óleo e azeite não é nem um pouco cabalística, apenas uma sugestão do meu pai que, ao me ver usando óleo, mostrou-se partidário do sabor do azeite e em instantes me convenceu disto. Enquanto você deixa os alhos e as cebolas fritarem, observe como alguns deles têm vocação para pipoca – e saltam de repente. É engraçado. Em seguida, adicione cubinhos de carne na panela. Eu usei carne cortada para strogonoff, pelo simples motivo de estarem à disposição na geladeira. Nada impede que você use outro tipo de carne ou que você desista da receita e vá jogar boliche. Faça o que te deixa mais feliz. Se você não optou pelo boliche, mexa a carne na panela e assim que achar que ela já está quase cozida, adicione duas latas de tomates nus. Não se acanhe, eles estão nus porque são hippies mesmo, não há o menor problema em expô-los ao público. Nessa hora, você deverá encarnar o modo bruxa da floresta e salpicar os tempeiros como em contos infantis, de preferência com gargalhadas sinistras olhando pra panela. Várias pitadas de sal, algumas de pimenta do reino, um pouquinho de um tempero grego que eu não sei o que é, orégano, ervas finas e pronto. Na panela ao lado, cozinhe o macarrão cabelo de anjo que, ao meu estômago, fica ótimo com molhos pedaçudos. Disponha a comida diretamente nos pratos, decorando-os como nos cartazes de cantinas. Sirva com vinho a gosto.
Monthly archives: May 2009
por que isso e não aquilo?
24May09Inspiração é um bichinho que mora na sua garganta e, dependendo do que você come, ele sai de lá para agradecer.
a primeira cebola a gente nunca esquece
23May09Resolvi encará-la. Deu vontade de fazer uma receita e, por mais que meu inconsciente dissesse o contrário, coloquei logo a cebola na tábua. Cortei as pontas e me desesperei. Como sai aquela casca? Fui com a unha mesmo, puxando de pouco em pouco e pensando no quanto de hidratante de framboesa eu teria que passar para tirar o cheiro. Cortei ao meio já com os olhos semi-fechados. As duas metades se acomodaram na tábua. Nessa hora, lembrei que algumas pessoas haviam me dado dicas sobre como encarar a cebola. A Anitta havia dito algo sobre colocar a cebola na água. Só que eu fiquei confusa com a sugestão – que era esfregar que nem ponta de pepino – e achei que tinha que cortá-la embaixo d’água. Não consegui elaborar um método que fizesse com que ela não fugisse ralo abaixo ou que ela não se espalhasse pela pia inteira. Desisti. Resolvi apenas deixar a água correndo na esperança de que aquilo aliviaria meus olhos, mas a consciência ecológica foi mais rápida. Além da vontade de fazer xixi que aquela água estava me dando. Daí lembrei que a Marilda contou que eu poderia cortar a cebola perto de uma boca de fogão acesa, mas fui obrigada a abandonar a idéia ao perceber que a tábua que eu estava usando era de plástico. Se eu colocasse aquilo no fogão, derreteria a tábua e eu teria um fondue de plástico com bastante cebola. O jeito foi ir na raça mesmo, cortando de qualquer jeito e controlando o arrepio. Só consegui cortar numa direção com a faca, depois peguei um negócio cortante que parece uma meia-lua e terminei o trabalho.
Ufa! A luta valeu a pena. O macarrão ficou bem feliz com o molho de tomates nus, carne e um monte de ervas.
entre uma perna e outra, grandes passos
22May09Deusa ficava triste ao ver o esforço do pai para dar de comer a ela e aos seus irmãos. Começou a trabalhar com 12 anos, para ser uma a menos para o pai. Arranjou logo uma vaga de empregada doméstica na casa de uma professora que ela adorava e, por uns trocados aqui e umas roupinhas ali, passaram-se quatro anos. Com 16, já fazia mais de ano que ela queria morar em São Paulo. Interior do Rio Grande do Norte não serve pra mim. Falou tanto nisso que o pai cedeu. Mas com uma condição: ela não podia ir para lá sem o curso de datilografia. Ele acreditava que era isso que podia dar futuro. Deusa se matriculou no curso. O plano era completar o curso até a data de seu aniversário de 18 anos, já que o pai daria a passagem de presente. Mas só com o diploma. A professora logo adiantou: ih, não vai dar, os alunos já passaram de 100 lições, você não vai conseguir alcançá-los. Engano dela. Deusa passou manhãs, tardes e noites em aula. E, recém completados os 18 anos, lá estava ela com o diploma e as passagens na mão.
Chegou na capital. Queria trabalhar em escritório. Foi parar num caixa de padaria. Eles pagavam 3 cruzeiros e essa era a média salarial das irmãs. Sabe, para um primeiro emprego na capital, foi bom. Ao vê-la insatisfeita, um cliente da padaria sugeriu uma vaga de escritório para ela. Fez a entrevista e a resposta viria um mês depois, com muita chance de dar certo. Animada, ela pediu as contas da padaria passados os 30 dias. E, em seguida, ouviu um “não” do escritório, que havia mudado de opinião. É, a vida na cidade não é fácil.
Um vizinho, sabido da situação, comentou: Deusa, já pensou em trabalhar como depiladora? Ela nunca havia depilado nada. Nem dela, nem de ninguém. O vizinho contou-lhe de um instituto que estava contratando e que queria treinar gente. Gente que nunca havia feito isso e, por conta da inexperiência, ganharia “apenas” 10 a 12 cruzeiros. Pelo visto, depilação tinha mais valor agregado que pães naquela época. Combinou com o vizinho que iriam juntos na manhã seguinte até o instituto.
Na manhã seguinte, o vizinho não atendeu a porta. Deusa voltou para casa, sentou, esperou. Foi lá de novo e nada. Lembrou-se do nome do empregador e da rua do instituto e não pensou duas vezes. Foi até lá e se apresentou sozinha. Umas duas horas depois encontrou seu vizinho lá, conversando com o dono, dizendo que ela era nordestina e que nordestinos trabalham bem, pois vêm aqui só pra trabalhar. O dono aceitou e Deusa entrou no ramo. Seus olhos brilharam ao ver pela primeira vez uma depiladora espalhando a cera na perna de uma mulher.
Hoje faz 17 anos que Deusa é depiladora e é quase impossível conseguir horário com ela. Ontem eu consegui duas coisas: horário pra mim e essa história – gostosa que só – de ouvir e contar.
flickr party: how it works
19May09Aqui vou eu de novo com o tal do stopmotion. Desta vez, feito pra explicar pro povo do meu mestrado o que é o tal do Flickr e suas festas.
Flickr: how it works from mawa on Vimeo.
Agradecimentos à Patinha-amiga-irmã-dupla-palhaça, ao Edson querido do Flickr, ao Weno pela sempre paciência e assistência de arte e ao Kusturica pela trilha.
desabafo
18May09Faz um ano que uma amiga minha escolheu a morte. E faz um ano que eu não consigo entender – ou seria aceitar? – como alguém escolhe isso.
A vida é muito curta pra gente abreviá-la.
sofia
17May09
Foto: Manjoca e Sofia
Raí tinha poucos anos e já estava careca. A máscara de hospital só nos deixava perceber suas reações por meio dos olhos, que ora franziam de sorriso e ora dispersavam em outro canto. Viu uma outra criança pelo vidro e nos chamou para vê-la. Quando chegamos, a outra criança já havia saído, mas ele continou com olha-a-criança, olha-a-criança.
Logo em seguida, Raí perguntou o que havia na mala de Manjoca. Sem hesitar, ela respondeu uma criança! Contou-lhe que se chamava Sofia e que em breve eles iriam se conhecer. Raí ficou cabreiro enquanto Manjoca caminhava até a mala. Como poderia haver uma criança lá? Em sua expressão era possível ver a desconfiança e, antes que ele se perdesse em seu próprio olhar, reforcei sua indagação é mesmo, como é possível haver uma criança aí?
De repente, por trás da mala, vimos uma mãozinha surgindo. A mão deu tchau e toda a dúvida de Raí foi embora. Ele sorriu por trás da máscara e retribuiu o tchau de Sofia. Tornaram-se amigos. Abraçou-a, beijou-a e pediu para pegá-la no colo.
Manjoca: Ih, não dá, por causa da mão. (no caso, a dela, que sustentava Sofia)
Eis que Raí responde:
Raí: Que mão?
Para Raí, Sofia era realmente uma criança dentro da mala e – por que não – sua mais nova amiga.
qual a cor do seu futuro?
11May09palhaça: Qual a sua cor preferida?
menina: Rio.
palhaça: Rio? Que cor é essa?
menina: É verde.
palhaça: Ah, a minha cor predileta é o mar.
menina: Mar?
palhaça: É, ué, mar. Que cor é o mar?
menina: Futuro
palhaça: Qual o futuro do mar?
menina: É o rio.
palhaça: E qual a cor do seu futuro?
menina: Meu futuro é amarelo.
Diálogo entre Manjoca e Amanda, sábado passado, num quarto de hospital.
yes, we can
03May09Eu já contei por aqui o desastre que eu sou na cozinha, queimando de pipoca de microondas até muqueca largada no fogão em troca de uma piscina. No entanto, minha gente, o mundo mudou. Desde que o Obama disse yes-we-can, eu me convenci de que poderia haver uma relação harmônica da minha pessoa com o fogão.
É claro que tive ótimas influências externas, mas agora posso dizer que começo a engatinhar na cozinha. O engraçado é que eu continuo lesada para certos detalhes e acabo aprendendo na raça mesmo. Nada de muito radical, mas algo como pensar em fazer filé de frango em tiras e, após um momento de reflexão, perceber que é mais fácil fazer isso grelhando o bife primeiro e cortando as tiras depois, ao invés de fatiá-lo cru. Isso pode parecer babaca, mas é uma bela diferença no momento crucial de montar o macarrão com páprica, tomate, fatias de frango e castanha de caju salpicada.
Outra coisa que eu venci – hoje, pra ser sincera – foi a panela de pressão. Eu sempre escuto umas histórias de cozinhas que foram destruídas pela panela, coifas arrasadas, feijão em todos os cantos do azulejo e, por isso, cultivava um certo pavor. Resolvi preparar uma sopa de abóbora com gengibre e usei a tal da panela. Durante o processo, continuei com a idéia de que seria ejetada da cozinha coberta com abóbora e salsinha, mas tudo deu certo. A receita? Abóbora, gengibre, alho, salsinha e caldo de frango. Coloque tudo na panela de pressão, espere fazer barulho, aguente mais uns 15 minutos em fogo baixo, olhe pra panela soltando a pressão e prepare-se para morrer, abra-a, agradeça a quem quiser por não ter sido morto pela panela, bata tudo no liquidificador e sirva, com frango desfiado a gosto.
Volto a dizer: esse mundo é totalmente novo pra mim. Ainda peno um monte para fazer as coisas sem lesar e ficar horrível. E tenho consciência de um problema futuro: cebola. O treco vai em tudo que é receita e eu sou péssima em lidar com estes seres que te fazem chorar. Um dia, quem sabe, quando o Obama erradicar a fome no mundo e disser yes-we-fucking-can, talvez eu me convença de que posso lidar com elas.
