Caro Celso,
Você não sabe, talvez não tenha a menor idéia, mas você é o responsável por meu gosto pela escrita. Tudo começou naquele curso de redação, escolhido por mim entre tantos outros. Não posso dizer que fui decidida na escolha. Redação era algo do meu interesse, mas eu poderia ter optado por um curso de marketing-de-luxo ou um curso de 5-técnicas-para-fidelizar-seu-cliente. Talvez me encantasse o fato de você atuar em campos tão diferentes como a ESPM e a Praça Roosevelt. Talvez fosse o fato de que você dava aula com uma calça azul pintada a mão e parecia um pintor que acabara de finalizar um quadro. Talvez não fosse nada disso. Mas lá estava eu inscrita.
Logo na primeira aula você me contou que eu poderia escrever em primeira pessoa. Eu já não sabia mais o que era isso. Recém saída de vestibulares e métodos aristotélicos de construção de idéias, me sentia quase que herege ao juntar as vogais ‘e+u’ num texto. Isso era a morte ou, na época, 3 pontos a menos na prova. Enfim, eu estava livre desse mal.
Pode parecer piegas, eu sei, mas escrever em primeira pessoa é mais do que um recurso de linguagem. Você se torna obrigado a reconhecer qual é essa primeira pessoa e o que ela tem a dizer. Você coloca a sua pessoa em primeiro plano e vai descobrindo como ela se relaciona como o mundo. Tem gente que chama isso de terapia, eu chamo apenas de auto-conhecimento-diversão. E ao longo do curso você me trazia referências, maneiras de contar coisas. Algumas eu não gostava, confesso, mas se não as fizermos nunca vamos saber do que realmente gostamos.
Já no fim do curso, você escreveu uma dedicatória pra mim num livro seu. Nela estava escrito:
Inteligência, humor, talento e aquela “pegada” que não nega as origens.
Além de me mostrar que havia uma pessoa por trás das letras, você ainda me deu o humor de presente. Senti uma vontade imensa de te abraçar e de conversar com o Woody Allen sobre isso, dividindo angústias e um bagel com cream cheese. Acabei fazendo apenas a primeira coisa.
Hoje, 7 anos após o curso, eu entendi que sempre há uma primeira pessoa por trás dos bons textos. Nem sempre essa pessoa habita um único corpo, pois pode perfeitamente passear entre personagens, idéias, criações ou viagens. Mas se essa pessoa não abraçar o texto, sinto muito. Não há graça num corpo sem alma.
Há tempos que quero escrever uma carta para você, mas nunca o havia feito. Aqui fica meu muito obrigada. Pelas palavras, pelas pessoas – inclusive a minha -, pelos rascunhos e pelas sensações.
Um beijo
MaWá
PS: a propósito, um bom texto pode ser melhor que um Häagen-Dazs. Só depende de como as coisas são colocadas.