Monthly archives: November 2008

lógica portuguesa

Eram três senhoras portuguesas. A primeira delas, de casaco preto e branco, foi feliz com o marido por 47 anos, até a morte dele. Ela nascera no Algarve, mas preferia morar em Guimarães.

- Algarve, só no verão.

- E o que a senhora costuma fazer aqui?

- Eu? Nada!

Seguia feliz ao lado da prima do seu marido falecido. Essa tinha a pele clara e o rosto manchado e me explicava que a terceira senhora estava afastada porque era a empregada, que sorria à distância interessada na conversa.

Me contavam que estavam a ir ao mercado para comprar algo para o almoço.

- Vamos comprar um peixe!

- Hummm, que delícia, assado?

- Não, cru. Vamos cozinhar depois.

Ai que burrrra (eu!). Era óbvio que mais dia menos eu cairia nessa lógica portuguesa que, a propósito, faz muito sentido. Acabei rindo sozinha depois, lembrando do diálogo e delas me contando sobre amores, Algarve, peixes e broas de milho da melhor qualidade.

garçom, pufavô…

Babem. Em Portugal, esses foram os itens que formaram minha base alimentar.

Alheira (linguiça de farinha utilizada pelos judeus para disfarçarem a religião) acompanhada de bacon.

Polvo (grelhado, talvez) com cebola assada, servido sobre batatas ao murro. Sim, eu tenho tique de colocar fotos verticais aqui, por isso ele está deitado.

Leitão (alguns defendiam a tese de que era uma leitoa) com batatas assadas e laranjas.

Leite-crema de acordo com os portugueses, mas é o famoso crème brûlée.

Arroz de pato com paio e bacon (embora o paio deles seja diferente do nosso).

Flor de jamón com salada-linda e um molho que tinha azeite, vinagre, sal e molho inglês.

Peixe grelhado com molho de maracujá, espinafre e folha crocante de batata.

Sorvete de menta, chocolate com folha de menta in natura e mousse de chocolate sobre cookie de chocolate. Olha, todas as sobremesas portuguesas incluem ovo e são deliciosas, mas essa daí pegou nos meus pontos mais fracos: chocolate e menta.

Raviole de abobrinha recheado de ricota e espuma de canela.

Manteiga de leite de cabra. Genial. Quando perguntamos onde comprá-la, o garçom disse que havia um único produtor disto em Portugal e que a produção dele era consumida inteira pelo hotel. Ou seja, só dá pra comer lá mesmo.

Escalopes com um molho semi-doce, acompanhado de uma espécie de risoto de batata palha e shitake. Havia também uma geléia pra comer com a carne, mas isso eu nem curti.

Torta crocante de maçã, groselha em cima para enfeitar, abacaxi abaixo e creme de manga com espuma de côco e folha de agrião (eu nunca havia visto a groselha em fruta).

É claro que depois de toda essa comida, digamos, leve e saudável, a caganeira virose apareceu e me fez dedicar vários momentos aos banheiros portugueses. Mas foi, sem a menor dúvida, o piriri mais válido que eu já tive.

O jeito foi controlar um pouco a alimentação, com exceção apenas para o crepe de nutella com banana em Paris. Afinal, não é todo dia que se chega em Paris com a neve caindo dos céus. Mas isso vai ficar pra outro post, já que este já está concorrendo ao ‘post mais longo do mundo inteiro’.

pousadas de portugal

As Pousadas são uma jogada interessantíssima em Portugal. O governo do país, frente a uma série de monumentos históricos e tombados, tinha dificuldade em manter os castelos e palácios que restaram dos inúmeros “Dom”. Dom Pedro, Dom Manuel, Dom Joaquim, a maioria construiu aquelas coisas gigantes que, na modernidade, não serviam mais para moradia ou casa de férias da realeza. Por isso, o governo decidiu instalar Pousadas – em sua maioria, de luxo – dentro desses monumentos, a fim de que eles próprios gerassem uma grana para se manter. O resultado de tudo isso, hoje dividido entre governo e o grupo Pestana, são as Pousadas de Portugal. E o ‘P’ maiúsculo não é à toa. Pousada lá é bem diferente do nosso conceito de hotel baratinho na beira da praia. Por uma sorte do tarô e da lua nascente em Gotham City, fui conhecer essas pousadas e desfrutar um pouco da vida de pessoas como Dona Maria, a louca – aquela que você aprendeu no colégio, lembra? Ou vai dizer que o único nome que você gravou das aulas de história foi pepino-o-breve? Aliás, voltando à Dona Maria, a Pousada de Queluz era um antigo domínio dela e dizem que, até hoje, é possível escutar os gritos da louca pela madrugada. Dizem que ficou insana quando chegou ao Brasil. Se naquela época ela já enlouqueceu, imagine se chegasse hoje no Rio pela linha vermelha?

Bom, como eu durmo tão leve quanto um hipopótamo grávido, é óbvio que não ouvi nenhum piu da moça. E ai dela se me acordasse.

ora pois

Fui lá longe colher histórias, imagens e sensações. Mal educada que sou, nem avisei. Mas prometo contar tudo por aqui.

Ó pá, Portugal é mara.

quando dentro é mais pra fora

No corredor do hospital, o aglomerado na família. Passei, olhei nos olhos de cada um. Recebiam a notícia de que a criança descansaria em paz. Preferem ficar no quarto ou fora dele?

Olhei mais uma vez e segui. Preferi ficar de fora.

pequeno

Tentou vender corações, mas eles não estavam na moda como os All Stars.

Resolveu distribuí-los de graça, que nem pipoqueiro em fim de expediente.

E não é que deu certo?

***

A imagem graciosa acima é do Chico Bela, um ilustrador que eu conheci sem a menor pretensão. Aí resolvi olhar o portfolio do cara e viciei.

tem seu charme

Sampa dos vidros molhados e abafados, com carros por dentro e por fora, por cima, por baixo e pelos lados.

Pensando em São Paulo, consigo entender a relação entre amor e ódio.