Os carros se emparelharam no farol. Num deles, a moça vista de costas. No outro, o moço com olhos vivos. Pararam um ao lado do outro, de maneira que o dele ficou um pouquinho mais atrás, como que para privilegiar o ângulo de visão. Ele olhava num misto de compaixão e vontade de abraçar alguém que parecia merecer. Ela mexia a cabeça curiosa. Entre os segundos de eternidade que revelam o farol fechado, ele estendeu a mão. Ela aceitou pacificamente, como quem não lê os noticiários embriagados de psicopatas urbanos. Ainda com as mãos se tocando, ele sorriu. O farol abriu. E o mundo voltou a respirar.
Em segundos suspensos pelo trânsito, eles encontraram uma maneira mais orgânica de se falar entre casulos e máquinas.