entre leucemia, iogurtes e games
Um bichinho doido que estava dentro do corpo. Era assim que eu concebia a leucemia do meu pai. Foi essa a explicação que eu recebi e que inclusive eu passei para todos os meus amigos da escola.
- Meu pai tá morando em outra cidade pra tirar o bichinho doido que está dentro dele.
Nunca poderia imaginar a gravidade do que estava acontecendo. E criança é engraçado porque não difere as coisas ruins das boas. Eu, por exemplo, era capaz de comentar com o mesmo fascínio o bichinho doido do meu pai e o iogurte que a moça de Curitiba fazia. Ela fazia o iogurte e o deixava descansando por dias enrolado num cobertor. Sim, um cobertor. E eu não escondia minha admiração por aquilo. Não há julgamento moral perante a novidade. Um adulto não pararia para ver quão legal é colocar cobertor na roupa, simplesmente porque ele se condena a ‘só pensar na tristeza até que ela acabe’. Parece que não há o direito de ver coisas boas. Ou que a cegueira da preocupação toma conta de qualquer poro de percepção.
Ben’s game é um caso muito bacana. Ben, um menino de 8 anos, foi ao médico para receber a notícia. Ele tinha leucemia e precisaria passar por uma quimioterapia. O médico explicou que as células boas lutariam contra as células más e disse que seria importante ele visualizar modos de cura para ele. Preocupados com o filho, os pais perguntaram, após a consulta, se ele havia entendido o que estava acontecendo com ele.
- Sim, há um game dentro de mim.
Respostas singelas mostram o mundo de um jeito mais calmo. Parece até que não pesa. A partir disso, Ben quis fazer um game que explicasse a leucemia para outras crianças e, com a ajuda do desenvolvedor Eric Johnston, o game ficou pronto e está disponível para download aqui. Hoje é utilizado para que as crianças entendam o que está acontecendo com elas e passem o tempo mais alegre no hospital.
Ah, já tem 15 anos que eu conheci o iogurte feito com cobertor. Nunca mais comi o tal, mas me contento em ver meu pai todas as noites tomando seu iogurte antes de dormir.



Lindo isso que vc escreveu. O post das pétalas tb. ^^
Mawá, que tem o dom do click e o de tocar o coração. Um abraço,
Nó na garganta…
Sou teu fã!
Mawá, cheguei aqui via um recado seu no radinho. E estou faz meia hora, li os posts da home, cliquei cá e lá e me emocionei. Lindo texto, Mawá com W, inteligência e coração.
Um beijo,
Patrícia