clóvis

13Apr08

No hospital, costumamos atender somente as áreas infantis, já que adultos são muito grandes para nós. No entanto, ontem, o seu Clóvis encontrou conosco no corredor e seus olhos brilharam. Ele saía do quarto acompanhado da médica, fisioterapeuta provavelmente, com uma missão: andar um pouco pelo hospital, para exercitar as pernas. Não preciso nem dizer que nos incluímos na missão.

A feliz coincidência foi que esse hospital tem um vão redondo no meio. Nas extremidades, pessoas se afundam em cadeiras esperando visitas, resultados e opiniões.

Sugerimos ao seu Clóvis que cantássemos durante a caminhada. Ele tinha um sorriso maravilhoso e pulsava a cada sugestão que dávamos. É óbvio que nesses improvisos a gente sempre manda uma que não podia mandar, como cantar direita-esquerda-direita-esquerda-prum-lado-pro-outro… Hummm, ele não consegue andar prum lado ou pro outro.

- Garçom, me vê uma outra música, pufavô?

Foi quando começamos a cantar caminhando-contra-o-vento-sem-lenço-e-sem-documento… Seu Clóvis não escondia a surpresa graciosa essa música não é do tempo de vocês, nem do meu, que sou de antes dela! As pessoas afundadas das cadeiras passaram a ser a platéia de arena da caminhada musical: alguns palhaços ao lado de seu Clóvis e um outro na frente, interpretando o sol que se reparte em crinas. Dadas as duas voltas, cedemos ao desespero da fisioterapeuta que repetia seu Clóvis, calma, você não pode ir tão rápido.

Agradecemos. A platéia aplaudiu, talvez misturando a esperança e vontade de seu Clóvis com a própria dor que o levou a estar afundado na cadeira do hospital. É bom pensar que o seu familiar/amigo pode ser o próximo a cantar sorrindo eu vou, por que não, por que não…


3 Responses to “clóvis”  

  1. 1 Careca

    Demais. Os adultos são muito grandes para os adultos também. Já disse que admiro pacas essa coragem? Você não tem medo de por a mão na massa! E nem de por o nariz de bolinha! Caramba! Quando é que sai um livro dessas aventuras da palhaça nos hospitais? Um abraço,

  2. 2 Anderson

    Que cena! Imaginei o cenário semi-psicodélico ao fundo.

  3. 3 Paula Nigro

    Meu olho lacrimejou…

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