Numa dessas crises de criador-fotógrafo-ah-minhas-fotos-estão-todas-iguais, passeava por Olinda com meu umbigo e minha máquina. Parecia que tudo que eu via já estava nos meus registros e eu só pensava se havia alguma razão para clicar aquilo tudo de novo. Me apropriando sem pedir licença de um termo ótimo daqui, eu tava sem saco de fazer foto soja.
Abre-parênteses. Tá, vocês podem achar viadagem frescura, mas essas coisas rolam com o povinho que vive se expressando. Fecha-parênteses.
Enquanto olhava para a Igreja da Sé, ponto alto e turístico de Olinda, lembrei de uma foto que havia feito há dois anos atrás. Mostrava a igreja desfocada por trás daquelas rendas que os moços vendem, que vó chama de caminho de mesa.
- Deve ser assim que o vendedor de renda vê a igreja todo santo dia.
A foto antiga foi feita em preto e branco e aí meus neurônios vieram com a proposta de releitura da foto. Dessa vez, eu podia fazer uma foto colorida e comparar com a antiga. Conversei com o moço da renda, contei a história inteira e o carinho que tenho pela outra foto e pronto. Lá estava ele de assistente, segurando a renda para eu fazer o clique.
Saí de lá e fui fazer as mil outras coisas imprescindíveis de Olinda, como comer uma tapioca de doce de leite com banana, tropeçar em algumas pedras no chão, ajudar a barraquinha a vender sei-lá-o-quê para um gringo e, claro, matutar se ‘fazer a releitura da foto tinha valido a pena’.
Feitas essas coisas, tomei o rumo de volta pelo mesmo caminho da ida. Para minha surpresa, vejo o vendedor de renda fazendo a mesma foto, todo retorcido para segurar o tecido e clicar o momento com o celular.
Ri. Definitivamente, agora a releitura havia valido a pena.

PB aqui e colorida aqui.