milek
Ele era o maior adulto que eu conhecia. Para olhar em seus olhos, eu tinha que subir a cabeça como quem busca algo na última estante da biblioteca, aquela que tem livros escritos em línguas difíceis. Ele também falava várias línguas difíceis e se orgulhava de nomeá-las calmamente apontando nove dedos, um por um: polonês, hebraico, russo, idish, espanhol, português, tcheco, esqueci e inglês. Gostava de livros e me deu de presente o hábito de ler antes de dormir. Quando criança, eu não adormecia sem antes ler o gibi do dia, de preferência da Turma da Mônica.
Eu sentava no colo dele, em cima da calça social com vinco amparada pelo suspensório. Me contava dos tempos da Polônia, ah que delícia, quando eles tinham a fábrica de couro. Eu não me lembro exatamente do enredo, mas sempre havia um rio na história. E do jeito que ele sorria ao falar do rio, devia ser um rio bem bonito, perto de casa ou na casa de campo. A família vivia feliz, ele, o irmão, todos empenhados na fábrica de couro que trazia um bom dinheiro. Até que veio guerra. Na guerra, perdemos tudo. Olhava pra baixo, na diagonal, apertava os lábios. Chorava por dentro e às vezes por fora também, até balançar a perna, cantar qualquer coisa em polonês e me oferecer uma mexerica.
Jogávamos tranca por tardes inteiras. Quando éramos somente os dois, ele deixava eu ganhar, até eu reclamar pára e joga direito! Aí ele ganhava uma e, na próxima, a vitória já era minha. Quando jogávamos em quatro, eu queria ser sempre a dupla dele. Primeiro porque ele jogava bem. Segundo porque ele nunca ficaria bravo se eu fizesse alguma besteira no jogo. Tranca é bom, buraco não presta, ele dizia segurando o copo de whisky. E me oferecia o copo para que eu colocasse o dedo mindinho e lambesse o gosto da bebida. O whisky vinha das compras tão adoradas do Free Shop, daquela época em que valia a pena comprar Crest, Lindt e Red Label na passagem pelo aeroporto. Quer dizer, se valia a pena mesmo eu não sabia, mas pela quantidade que era trazida, acho que sim.
Eu gostava também de pentear seu cabelo com o pente fino habitante do espelho do banheiro. Eu devia gostar disso porque era algo impossível de fazer com o meu cabelo sarará-cheio-de-nó. Imagine só passar um pente nele. Era um prazer silencioso cultivado a dedo, tanto em seus cabelos brancos como na minha coleção de pôneis.
Passei um conjunto de tardes ajudando-o quando seu rim já não conseguia mais cuidar dele. Numa quarta-feira, quando eu já batia na altura de seus ombros, fui embora de sua casa à tarde. Ele dormia no sofá e parecia estar doído. Me despedi com um beijo longo sem que ele acordasse. Mesmo que estivesse sofrendo, tive a sensação de que o que ele queria naquela hora mesmo era dormir.
Nessa noite, ele sonhou pra sempre.
Se meu avô estivesse vivo, hoje ele faria 97 anos.



eu visualizo as cenas. e lembrei do meu avô também.
Cara Mawá,
seu texto está uma mistura perfeita de Clarice Lispector e Lygia Fagundes. Genial, emotivo, bacana. Com uma continuidade, daria um bom livro de memórias. Parabéns! Bjs, Marília
Má:
Tenho certeza de que se o vovô estivesse vivo diria com todo orgulho: essa é minha neta, tem a quem puxar!
Obrigada por me fazer recordar bons momentos ao lado dele e por você ser tão especial e conseguir descrever com palavras toda a emoção e saudades que sentimos ao se lembrar do Milek…
Beijos
A saudade é um sentimento que se compartilha, e cada um com a parte que lhe provoca a saudade. O melhor de tudo isso é ter lembranças e sempre boas histórias.
Sobre pentear os cabelos: eu tb tive essa sensação, mas nos cabelos lisos de meu pai. A saudade dói, mas tem hora que é bom sentir.
Fantástico o texto e as lembranças que ele me trouxe dos meus avós.
É por textos assim que esse blog vale o investimento…
Ai gente, lacrimejei com cada um dos comentários. Assim vocês me matam…
ô Mawá… Que delicadeza e profundidade. Fiquei tocada. Não só o avô era lindo como a neta que ele tem também é.
Belo texto!
Beijos com lágrimas nos olhos.
Mawá, que delícia de texto!
Mais do que passar as emoções para o papel (ou tela!) de forma maravilhosa, você sabe senti-las como ninguém!
Fiquei arrepiada lendo esse texto!
Sensacional!
lindo seu texto MaWá… fiquei fã!
Má…mais uma vez eu estou sem palavras…
Não conseguiria nem descrever exatamente tudo o que eu senti lendo o texto…e nem colocar em palavras o quanto eu o achei maravilhoso…queria poder fazer um elogio a altura do que vc escreveu, mas terei que partilhar com vc o meu silencio, pis foi assim que fiquei depois de lê-lo: encantada e sem conseguir expressar tudo o que ele despertou!
parabéns, mais uma vez! é muito bom poder ler tudo o que vc escreve…
saudades…
beijos, Dê.
Nossa..
:´)