círio de nazaré

E de repente aquele monte de gente surge pela Presidente Vargas. Começa devagar, uma promessa aqui, uma cantoria ali, o que eu prometeria se estivesse no lugar deles? O Círio de Nazaré é sempre no segundo domingo de outubro e por algum elemento de sorte do universo eu caí em Belém do Pará exatamente nesse dia. Nesse dia que é mais importante que o Natal, nesse dia que recebi o convite amável de um moço no avião, oferecendo a casa do sogro. A gente reúne a família inteira, vê a procissão pela janela. É bem bonito, sabe, todo mundo em casa, eu, minha mulher, meus filhos, meu sogro, vendo a santa passar. Obrigada - agradeço o convite - é bom pensar que às vezes podemos confiar em estranhos. No que será que os 2,7 milhões de estranhos do Círio de Nazaré confiam? O que eles prometem? A dor e o sofrimento parecem ser o meio de demonstrar tudo, colocar em público a força que oferecem para que as promessas sejam cumpridas. Uns ajoelham, outros levam velas em forma de pé-cabeça-braço, outros levam miniaturas de casas e barcos, outros levam cruzes. Alguns levam somente o coração apertado e cheio de fé.

No Les Éphémères a criança pergunta à avó o que é fé. A avó fica muda, entra a trilha, acaba a cena. Fé é o que eu vi lá. É a cena dantesca de corpos e mais corpos migrando num passeio brutal e quente. É ver na sua cara mais um Jesus da vida, carregando a cruz como se tivesse traído a nação inteira com o culto a mais de um santo. É a senhora que caminha aquilo tudo com o punho no coração e o olhar no horizonte. E pensar que ela deve fazer aquilo desde que se conhece por gente. Acho que a gente faz promessa para se conhecer como gente. Mas, afinal, é possível pagar de algum jeito? Martírio é um jeito de quitar dívida? O amor só é bom se doer?

Círio tem origem na palavra latina Cereus, que significa vela grande. Velas grandes se confundem com macas durante a procissão. Corpos desistem desafiando o cérebro e desmaiam. As macas liberam o caminho para que as velas continuem seu rumo à basílica. Completar o caminho é o objetivo, seja segurando a corda, seja jogando água nas pessoas que seguram as cordas, seja com seu modo próprio de demonstrar o boleto da promessa pago e assinado embaixo, com registro em cartório.

As cenas parecem dar tapas na cara, hey, o que você está fazendo aqui? Você acredita nisso ou não? Zero-um, vai pedir pra sair, zero-um? A procissão segue, a lente registra, a santa passa. Aprendo mais uma palavra - berlinda - a carruagem que leva a imagem da santa e, por isso, está no centro e chama atenção. É, faz sentido. Talvez uma das únicas coisas por lá que faz sentido de maneira racional. O restante, só sentindo mesmo.



Essas manifestações religiosas me comovem muito e sempre choro às escondidas quando vejo esse povaréu. Eu não saberia definir com palavras o que é fé. Talvez por isso me comova tanto com essas demonstrações mais puras de confiança.
Lindas as fotos, Mawex. Eu sempre quis conhecer o Círio de Nazaré (mas acho que nunca comentei com ninguém…) e acho que toparia o convite do moço do avião.
O Darcy Ribeiro conta que quando sua mãe estava ao leito de morte, ela lhe disse que em breve estaria na presença de Jesus. Agnóstico que era, não criticou ou julgou, ao contrário, achava bonito a Fé que ela tinha em suas crenças, apesar de não acreditar. Isto sempre me marcou por 2 aspectos: o Respeito e a própria Fé, que por mais paradoxal que pareça, acredito, também pode ser racionalizada!