transmissões
A filha de poucos meses estava lá, na UTI. A mãe também, bonita, loira e maquiada. Vocês são lindas, vocês são lindas, ela não parava de dizer. Comentou o modelito das roupas, cantou baixinho no ouvido da filha. Um encontro gostoso e com bom astral. Na despedida, num surto meu de loucura, ao invés de tchau eu disse parabéns.
- Como você sabe?
- Sei o quê?
- Que é meu aniversário!
Nos encaramos profundamente. Eu não tenho idéia de onde surgiu aquilo ou porque eu mandei um parabéns. Aqueles dois segundos de conexão pareciam eternos.
- Hoje?
- É.
Ela parou, pensou e corrigiu.
- Quer dizer, foi ontem. Já perdi a conta dos dias aqui.
Eu e Manjoca (minha dupla) voltamos ao leito para cantar parabéns. No meio disso tudo, da euforia do parabéns e da festa improvisada na UTI, fiquei pensando em como ela havia perdido a noção do tempo, do que é dia, do que é noite. Hospital nos deixa enclausurado numa rotina de esperança e aflição. Nada mais tem importância, o mundo se restringe a uma cama, tratamentos e resultados. Ou, eventualmente, festas de aniversário com dois palhaços, um enfermeiro, uma mãe, uma filha e bexigas feitas de luvas com ar.



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