mundano

Ele estava entediado há um tempo. Já havia cantado todas as músicas que sabia, já havia relembrado todas as vezes em que deu um sorriso forçado e já havia contado quantas gotas de orvalho são necessárias para encher um copo de requeijão. Já havia até mesmo arrumado seu armário, já que isso é coisa de quem não tem o que fazer. Encontrou de tudo: roupas antigas que esperavam pela dieta para voltarem a viver, cadernos escritos e amarelados pelo tempo no melhor estilo naftalina e até uma coleção de potinhos de purpurina que ele não fazia a menor idéia de onde tinham surgido.

Foi quando encontrou o seu velho saquinho de bolas de gude. Aquilo lhe trouxe uma felicidade imensa. Não é sempre que encontramos coisas tão preciosas – e sem qualquer expectativa. Seus olhos brilharam. Reviveu o tempo atrás daquele, no qual as bolinhas eram super agitadas. Respirou fundo, guardou a sensação dentro dele e, com aquela energia, começou a jogar.

Deu o primeiro peteleco. As bolas paralizaram de qualquer jeito. Olhou, negou, pensou. Vou encontrar a posição perfeita pós-peteleco para essas bolas. Juntou-as novamente e assim o fez. Peteleco. Hummm, não. Outro peteleco. Hummm, não. Só mais um. Hummm. Hummm. Hummm. Última vez, vai. Peteleco. Foi. As nove bolas se colocaram na disposição mais perfeita do mundo. Ou melhor, do universo.

O seu trabalho com as bolas já estava feito. Mas sentia que faltava alguma coisa. A noite já vinha chegando, o dia inteiro passara nessa brincadeira. E como quem tem uma idéia maravilhosa, do tipo acende-lâmpada-na-cabeça, pensou em iluminar aquelas bolas. A noite chegava e era preciso deixá-las confortáveis. E se tivessem medo do escuro? Pegou a tal da purpurina que estava no armário – afinal, elas têm que ter um objetivo maior na história, caso contrário, seriam purpurinas inúteis – e pouco a pouco polvilhou as nove bolas de gude com a purpurina. As bolas se iluminaram um pouco, com o restante de luz do dia que ainda refletia algo. Mas como aquela luz em breve acabaria, ele pegou duas lanternas, uma amarela maior e uma branca menor, e ficou lá brincando com as luzes e com as nove bolas de gude e com a purpurina toda, como um iluminador de teatro que dá vida ao palco e seus personagens.

E assim Ele fez o universo, os planetas, as estrelas, o sol e a lua.

5 Comments

  1. Anette

    lindo!

  2. Bi

    Amei!
    Adoro pensar que as coisas podem acontecer quando não se têm a menor pretensão de que aconteçam….

  3. Que bonito texto!

  4. Lindo! Sensível…
    AMEI!
    saudades doida!
    beijos!

  5. se fosse eu seria o buraco negro. sempre me dava mal com as bolinhas de gude.

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