Era uma época em que eu não ganhava dinheiro e, por isso, queria fingir que não gastava. Isso, aliado ao espírito roots, me colocava em viagens onde o lema era gastar menos e experimentar outros mundos. Lembro das exatas 6 horas dentro do pau de arara que perseguia o pó das terras cearenses. Chegamos na feira da cidade perguntando qual seria o jeito mais barato de ir até Jericoacoara. É naquele pau de arara ali, moça. Mas cuidado, porque, branquinha desse jeito, o sol vai te avermelhar. Conselho recebido e resolvido pelo fator 30 na minha mochila. O problema era que o fator 30 não me protegeria da cabeça quente e, com certeza, empoeirada iria ficar. Resolvo percorrer a feira para achar qualquer coisa que abrigasse o coco. Um chapéu qualquer, mas com uma única regra. Me negava a percorrer o Brasil num pau de arara vestindo um boné da ‘Nyke’. Ou um chapéu de qualquer time americano de basquete, cujo nome os cidadãos daquela cidade pronunciavam das maneiras mais caricatas possíveis. Como as ofertas da feira se reduziam a esses modelos americanóides, resolvi entrar numa loja de tecidos. E o problema do coco quente foi camuflado por faixas de tecido florido envolvendo a cabeleira. Sim, assim eu aceitava comer o pó da terra. Tecido e águas comprados, subimos no pau de arara. Eu, amiga, dois italianos e duas nativas, uma com criança de colo e outra com criança de pé. Não faço idéia de como os italianos foram parar lá, mas sempre existe um gringo bizarro nessas situações.
Enfim, começamos a viagem. O banco batia bem no ossinho lá debaixo, o que fazia você lembrar do assento por, no mínimo, 5 dias. Tudo bem, não havia dinheiro para um upgrade mesmo. As crianças suavam tranquilas, pareciam já conhecer o trajeto e não mais estranhavam nada a não ser os gringos. Hora da primeira parada. Pausa para fotos, daquelas que comprovam que você realmente se meteu naquilo. Pausa também para restaurante sujo, pão de queijo sujo e constatação de que o seu corpo é mais forte do que você imagina – nada que um vermífugo não resolva. Depois, volta ao pau de arara. É hora de seguir viagem. Subimos, acomodamos os mesmos ossos sobre o metal do banco e tudo segue. No ouvido, discman tocando Zeca Baleiro, mais precisamente, a música Bienal. Não me perguntem por que eu lembro de ter escutado essa música. Só sei que, na hora, ela fez um imenso sentido pra mim, de modo que hoje em dia é impossível escutá-la e não lembrar da epopéia.
Em meio ao monte de cidadezinhas percorridas, todas diferentemente iguais, lembro da criança de colo. Aliás, foi ela que me fez lembrar dela, já que comecei a sentir um líquido quente caindo direto no meu pé. Sim, foi isso mesmo. Nada que o sol não secasse rapidinho – lembre-se que a água potável era escassa e não fazia sentido utilizá-la para limpar meus dedinhos. Mais uma vez, a constatação de que nosso corpo é mais forte do que imaginamos. Eu não iria pegar nada esquisito se não limpasse o pé em menos de 4 horas. Pelo menos, preferia acreditar nisso.
O restante da viagem foi tranqüilo, bem finalizado com a vista do final da tarde de Jeri. E com um belo banho, que tirou o pó, mas não as lembranças.