Domingo à noite
MaWá sai do restaurante com papai, mamãe e vovó. Enquanto espera o carro, o seresteiro chama a sua atenção.
- É um baião antigo, de Luiz Gonzaga.
- Posso ouvir?
- Claro… (intro no violão) O cabôco Marcolino/Tinha oito boi Zebu!/Uma casa com varanda/Dando pro Norte e pro Su!
MaWá começa a cantar. Seresteiro se espanta.
- Você conhece?
- Sim, adoro Luiz Gonzaga.
- (continua no violão) Ai, Xandusinha!/Xandusinha meu xodó!/Eu sou pobre, mas você sabe,/Que o meu amor/Vale mais que ouro em pó!
MaWá acompanha na percussão corporal. Seresteiro sorri. Trocam. Música é mesmo universal. Fim da música. Muito prazer, Zezinho da guitarra.
- Bom, tenho que ir (papai, mamãe e vovó já estão dentro do carro)
Manobrista intervém.
- Espera, toca um pouco mais. Sou baterista.
Música é mesmo universal. Zezinho desafia.
- Como você faria um chorinho?
- Chorinho? Pois não…
Ele toca 1×0. Amo. Acompanho no samba. Música é mesmo universal.
Me despeço, entro no carro. Qualquer dia volto para tocar com o Zezinho da guitarra. E quem sabe, com o manobrista também?
* A propósito, Xandusinha é uma composição de Humberto Teixeira mais Luiz Gonzaga.



Gostei bastante dessa história!
Fiquei pensando no quanto ela tem a ver com o que voce escreveu outro dia sobre se aventurar por um estilo musical (”Pedala”)… E como você mesma diz, música é universal, e vai bem além dos sons. Abrir os ouvidos pra música requer receber um universo todo que inclui também o manobrista e o sertanista. Demais!
Mas deve ser por isso que tanta gente prefere receber as oito múscias que vai escutar no próximo mês devidamente empacotados pela rádio Jovem Pan!
Olá Mawa. Eu de novo (o Edu, amigo do Mauricio Maas do Barbatuques) e que ama Michael Flatley. Pô, que chato essa mania de ficar me identificando através de um monte de atributos terceirizados. Mas como a gente praticamente não se conhece… bom, deixa pra lá.
Eu li essa história do seresteiro e de você acompanhando com percussão corporal. Tenho receio de parecer bobo, mas essa história, pequenina, que passaria despercebida por milhões de pessoas, me causou uma forte emoção. Eu sou um apaixonado pela possibilidade da integração com o outro. E a música se presta tão bem a isso. Não é uma panacéia, claro, mas a música é aquilo que chega mais perto daquilo que eu chamo de comunhão entre os povos. Você pode juntar pessoas que nunca se viram na vida, cada um vindo de uma cultura, com linguas diferentes… e se repentinamente começam a fazer música, algo mágico acontece e há aquele entendimento entre todos. E se a coisa sai legal, todo mundo abre um sorrisão gigante, daqueles que vêm lá do fundo, nem dá pra segurar.