Existem poucas coisas das quais eu me arrependo. Sempre acho que, se assim foi, era porque assim deveria ser. E se assim não foi, era porque não era para ser. Mas ano passado rolou algo que eu gostaria que acontecesse de novo. Impossível, mas eu gostaria. Estava num bar, trabalhando (sim, eu estava trabalhando!), quando um senhor começa a conversar com as pessoas da minha mesa. Um senhor de uns 60, 70 anos, barba e um certo sotaque. Estava sozinho, jantando e bebendo. Para ser sincera, eu tive dó dele naquela cena meio deprê, meio nostálgica. Pensava: puxa, ele deveria ter vários amigos, a mulher, os filhos. Hoje em dia, a mulher já foi, os amigos estão doentes e os filhos moram em outras cidades. Tudo isso era fruto da minha imaginação. Conversa vai, conversa vem, ele revelou: sou fotógrafo. Eu, na maior ingenuidade, respondi: eu também. E só. Contou dos filhos, de quando chegou ao Brasil, de sua vida e da sua aparente espera pela morte. Já não sei mais se essa era uma impressão minha ou a realidade em si. Mas era o que eu sentia. Por fim, o famoso “como você se chama?”. Ele respondeu: Otto. Eu: Prazer, Marina.
Só no dia seguinte eu fui descobrir que aquele Otto era o Stupakoff. Ah se eu pudesse voltar no tempo…