Cida
A capa da Veja dessa semana, logo após o Dia Internacional da Mulher, trouxe à tona o assunto da violência. Mulheres que hoje em dia se libertam, que se sentem à vontade para contar com o apoio da sociedade - e não têm mais a vergonha de assumir que o cara que elas escolheram para “a vida toda” usam da violência para atingi-las. Fico feliz que seja possível falar disso atualmente. Mas ainda sinto um certo machismo na hora de retratar o assunto. Calma, não vou levantar nenhuma bandeira feminista aqui. Mas, em minhas andanças por aí, conheci uma pessoa. Cida era seu nome. Cozinhava para mim e para mais um grupo de jovens que se aventurou a ensinar alguma coisa no interior da Paraíba. Nosso convívio com ela era diário, de tal forma que sabíamos tudo. Seus dois filhos passavam o dia junto com ela, um moreno e um bem loirinho – galego, eles diziam. Morava na zona rural, com os dois filhos e o marido alcoólatra. Era bonita, à sua maneira. Já havia tido sua fase de ouro, mas por lá era dito que a vida difícil trazia o sinal rápido da idade. O marido alcoólatra era, por conseqüência, violento. Certo dia, o galeguinho chegou com um corte na testa. Perguntamos à Cida, e ela silenciou dizendo que havia caído da cama. O irmão logo entregou: foi pai que bateu. A resposta nos pegou de surpresa… e agora, o que fazer? Infelizmente nada. Em outra tarde, passei horas lá na escola onde dormíamos preparando alguma coisa e batendo papo com a Cida. Conversamos sobre tudo, até chegar no assunto do marido. Ao ver que ela assumiu a violência doméstica, logo revidei: E por que não larga dele? Sua resposta foi: quem gosta de dar, gosta de apanhar.
É por isso que questiono a versão da mulher coitadinha.



e a natureza animal, aquela que a gente não controla e no fundo é a nossa essência (acho que você já falou isso em algum texto), aparece…